E o dia, em pânico, fugiu.
Tentaram caçá-lo em vão
Através da risonha escuridão.
Perguntaram. Ninguém viu.

Chamaram bombeiro, polícia.
Dia, correndo, ninguém alcança
Seja homem, mulher, idoso, criança.
Não houve quem desse notícia.

Quem desse pista, esperança.
Enquanto isso, uma janela se escondia
A tudo viu. E não delatou o dia
Porque tinha medo de vingança.

(RdM)



Dezenove, dezenove e pouco...
Dezenove, dezenove e muito...
Fez de conta que era meia-noite,
O sol mal havia dobrado a esquina.
Fez de conta que era lua cheia
Mas era apenas luz de um poste.
Imaginou que de casa perto estava.
Casa? Daquelas que se chamam lar? Dem tinha. 
Dele mesmo, só estômago roncando,
Par de pés: solas, unhas e verrugas feito brasas.
Saía das casas o cheiro da janta
Perfumando uma noite ainda de fraldas.
Longe de pousada, de repouso, de paz,
De trocar prosa com o compadre pestana.

(Rogério de Moura)

Ilustração: Rogério de Moura

E Deus nos criou à sua imagem e semelhança. E quanto ao resto. Não?

Se o ser humano simplesmente desaparecesse da face da terra...
Os únicos que sentiriam nossa falta seriam os animais domésticos.
Os dependentes, pereceriam, com certeza. Os demais, adotariam uma vida selvagem, caçando para sua sobrevivência.

O ar atingiria níveis de pureza inimagináveis.

Fauna e flora atingiriam sua plenitude em menos de cem anos.

Espécies em extinção voltariam a se multiplicar.

Ecossistemas seriam recuperados. Novos seriam criados.

Em centenas de anos, edificações, por mais resistentes, ruiriam.

Estradas seriam cobertas por vegetações.

Corrupção, violência, poluição, ganância...

Somos assim tão divinos?

(Rogério de Moura)

Se você quiser frutas e legumes realmente saudáveis, tem que plantá-los no seu quintal.

E, pelo jeito, se quiser comer carne bovina saudável, também vai ter que criá-lo no seu quintal.

Eparrei!

Ela foi cercada, agredida e morta. Durante a agressão, ninguém se aproximou para defendê-la. Enquanto ela agonizava, ninguém para socorrê-la. 
E agora, com o corpo estendido na calçada, ninguém para velá-la. Não houve quem se importasse com o que estava acontecendo, sob o sol do meio dia, na calçada de uma grande metrópole. 
Um carteiro que passava por lá não percebeu. Muito menos um senhor. Atrasado para o trabalho. Tampouco uma mãe que estava levando os filhos para a escola. Um dos filhos reparou no acontecia e apontou o dedo. A mãe, alheia, o puxou, arrastando-o na direção da escola. Afinal, estavam atrasados. 
Não contentes, os vorazes agressores começaram a esquartejar a vítima. Os carros que passavam não pararam. Um pipoqueiro que passava pelo lugar não deu a mínima importância. 
Chegou a polícia! Finalmente haveria alguma reação. Nada. Os dois policiais passaram bem ao lado, calmamente, conversando entre si. 
Eis que os assassinos começaram a comer a vítima, enquanto outros comparsas se afastavam, levando alguns pedaços consigo. 
Violência brutal e desmedida, em plena luz do dia. Mas é um mundo violento. Duvida-se que irá, no dia seguinte, figurar entre as manchetes dos jornais. 
Um fato despercebido por acontecer entre uma pobre vespa e um bando de formigas. 

(Rogério de Moura) 


- Meu esquete é assaz melhor que o seu!

- Divirjo! Divirjo veementemente!

- Filho de uma lambisgóia!

- O cavalheiro está ofendendo a minha progenitora! Queira, por obséquio, retirar a ofensa!

- De modo algum, pelo contrário. Reitero com veemência: sua progenitora está longe de ser uma dama!

- Eu repilo! Eu repilo! Insisto que retire imediatamente tais afirmações!

- Quem se recusa sou eu em tirá-las! Nego peremptoriamente!

Começam a brigar. Na arquibancada, inicia-se um tumulto, gereralizando em socos e pontapés. O vendedor de grapette saiu correndo, seguido pelo vendedor de bijús, em pânico. 

Instantes depois, ternos rasgados, sapatos e chapéus para tudo quanto é lado.
Um ferido lamentava-se com os olhos marejados:

- Meu bigode! Arrancaram o meu bigode!

(Rogério de Moura)


Quando aquilo começou? Desde que faleceu sua esposa. Ao mesmo tempo, companheira, testemunha, amiga, amante, conselheira. Seu único alicerce. 

O mundo deixou de ter sentido. Restou-lhe um banco de praça e migalhas de pão que jogava aos pombos. Alimentava as aves. Olhos tristes, embalados em lágrimas. Com o avançar dessa rotina, passou a reconhecer cada pombos. Bicos, penas, tonalidades, feridas. Casais. Podia dar-lhe nome, se tivesse ânimo para isso. Os pombos também o reconheciam. Bastava sentar-se no banco e pousavam ao seu redor aguardando pelas migalhas que ele não negava. 

O viúvo ficou seriamente doente. Deitado em seu leito, através da janela, podia ver as janelas dos outros prédios. Um pombo pousou no parapeito da janela. “Igualzinho ao pombo da praça”, pensou. Juntou-se outro pombo. Também semelhante ao pombo que alimentava na praça. Outros pombos juntaram-se. Observou-os com maior atenção. Reconheceu-os. Eram os mesmos pombos da praça. 

Durante uma semana, os pombos da praça iam visitá-lo. Às vezes, uma enfermeira entrava no quarto e iniciava um histérico e inútil trabalho para enxotá-los. Um dia, nenhum pombo pousou no parapeito daquela janela de hospital. No dia seguinte, o viúvo teve alta. 

No dia seguinte, lá estava ele, sorriso no rosto, alimentando os pombos, para revolta de alguns pedestres para quem as aves eram "ratos de asas". 

(Rogério de Moura)

Pintura de Denise Ludwig.

Quando crianças, sempre temos algumas dúvidas tolas. Crescemos, envelhecemos, e nossas dúvidas tornam-se cada vez mais tolas.

Quanto às dúvidas infantis, uma questão fez parte do meu imaginário por todos meus "melhores anos". Pensando bem, perdura até hoje: "como é que Jesus nascia no fim do ano, dois meses depois as pessoas faziam uma festa pagã e dois meses depois matavam o pobre rapaz?"

(RdM)



É engraçado conversar com petistas sobre Cuba. O militante estufa o peito e começa uma longa defesa sobre esse pequeno país. Do sistema de ensino aos avanços da medicina. Depois, é claro, ataca o imperialismo dos Estados Unidos. 

Mas, só existe Cuba? Se você falar da União Soviética, da China, da Coréia do Norte e do Stalin, eles mudam de assunto. 

Um petista, amigo meu, chegou a falar que a China não era comunista, era capitalista. 
Segundo a Encruzilhadapedia, a bandeira nacional da República Popular da China é vermelha com cinco estrelas amarelas no canto superior esquerdo. Todas as estrelas são de cinco pontas, sendo que a estrela maior simboliza o PCC (estamos falando do Partido Comunista da China, pelo amor de Deus!), e as quatro menores estrelas simbolizam o povo chinês. A relação das estrelas significa a união popular sob o comando do PCC. A cor vermelha da bandeira simboliza a revolução de 1949, e a cor amarela das estrelas é para destacar a claridade da terra vermelha.

Eparrei!




Urbano.
Rural.

Antigo.
Moderno.

Par de tênis no fio que cruza a rua.
Chuva chovendo no horizonte.

Asfalto.
Plantações.

Bois.
Carros.

Vilarejos. Telhado de barro.
Condomínios. Laje.

Buzinas. Sirenes. Gritos de motocicletas.
Gorgeios. Cricrilar. Galo cantando.

Autofalante falando sobre a morte de um ilustre da cidade.
Autofalante anunciando "pamonhas de Piracicaba".

Praças com velhihos fofocando.
Praça com velhinhos jogando dominó.

Pombo ciscando no chão.
Pombo ciscando no chão.

Baratas.
Baratas.

Pernilongo beliscando.
Pernilongo beliscando.

(RdM)





Não se apaixone,
Nunca!
Jamais!
Você pode fazer coisas terríveis
Contra si mesmo!

(RdM)
Um dos maiores reverses das tripas...
E, de repente, o vômito.
E, por um bom tempo, foi saindo tudo,l
Faltando ar, quase saindo as entranhas.
No final do impulso imposto, 
Tentando buscar o ar que fugiu da respiração,
Foi como se vomitasse o universo.
Teria criado outro?

(RdM)
Depois dos últimos ecos da trovoada
Quem irá calar as primeiras gotas de chuva?
Os telhados? De barro, de zinco, de eternit?
Ou serão as folhas das copas das árvores?
A parede de um prédio? 
O chiar do pneu no asfalto?
O ladrilho do chão do quintal?
O chacoalhar de um cão que fugiu das águas?
E quem avisará as formigas sobre a enxurrada?

(RdM)


Relâmpago,
Se debaixo da terra estivesse
Seria raiz.

(RdM)


Algo escorregadio esmagado debaixo da sola...
Como avisar aos caramujos, aos caracóis, às minhocas,
Sobre os perigos de se arrastar pelo piso de uma casa à noite
Sob a penumbra?

(Rogério de Moura)


Primeiro filme no DVD. Na cena, uma copeira entra no quarto, vê um corpo estendido no chão e grita.
Segundo filme no DVD. Na cena, uma copeira entra no quarto  e, na cama, um casal morto violentamente. Gritos.

Terceira obra audiovisual no DVD. Novamente estavam lá, a copeira, os corpos, o grito.
Homenagem à uma figura clássica do cinema que pouca gente fala: a copeira que entra no quarto só para gritar, depois de ver o morto (ou mortos), no chão ou na cama. Viva a copeira do grito!
Era uma vez uma gotinha. Uma gotinha d´água muito bonitinha.

A gotinha d'água gostava muito de brincar com suas amiguinhas, gotinhas iguais a ela. Foi quando fizeram a primeira poça.

Depois, transformadas em vapor, fizeram a primeira nuvem. Juntando-se depois na primeira chuva.

A gotinha nunca se esqueceu do dia em que ela e suas amiguinhas correram pela sarjeta, juntando-se com milhares de outras gotas em um córrego. Ela só não gostou da sujeira porque havia muitas fezes, móveis, colchões, restos de bicho morto e, de vez em quando, surgia um pedaço de partes humanas.

Também não se esqueceu do dia em que, sendo chuva, caiu na boca de uma criança.

Um belo dia, a gotinha d´água se juntou com outras gotinhas e depois com outras e mais outras.

E, todas juntas, fizeram uma enchente, matando uma porção de pessoas.

As pessoas que sobreviveram choraram muitas outras gotinhas d'água.


(Rogério de Moura)


Erros gramaticais também resultam em poesia.
Que o diga quem toma sopa de letrinhas.

(Rogério de Moura)


O funcionário da paróquia estava fechando os portões da igreja,quando um mendigo, que costumava a dormir pelos arredores, entrou correndo:
- Não fecha ainda! Não fecha!
O funcionário estranhou a afobação do sem-teto, mas logo, tudo se elucidou, ao ver o sujeito entrando para recolher o seu celular, que deixou para carregar numa das tomadas.

(Rogério de Moura)




Se estou com os dias contados,
não quero saber,
jamais,
para não praticar a Matemática.

(Rogério de Moura)




Ouviu-se um pneu derrapando e logo depois uma buzina e, quem olhasse para essa direção, veria dois motoristas discutindo, cada qual achando que tinha razão.

Um cão passou perto, pouco se importando com os gritos dos motoristas e, na casa em frente, entrou pelo vão do portão. Espreguiçou-se... Por que os cães fazem aquele rodopio antes se deitarem? Repousado no chão, fechou os olhos e invocou o seu sagrado cochilo.

Pouco importou-se com um sabiá que roubava sua comida, naquela marmita sem tampa, onde seu dono havia colocado uma porção da ração diária.

(Rogério de Moura)


Manhã, o sabiá, o bem-te-vi e o caminhão do gás,
Tarde, camnhão do gás, carro das pamonhas de Piracicaba;
Noite, o berro das motocicletas das pizzarias,
Sempre e a qualquer hora: o som do carteiro trazendo contas.

(Rogério de Moura)


Resultado de imagem para sons ilustração


Rita é uma mulher 
como outra qualquer.

Só que com céu e estrelas,
Vento e brisa, sol e lua, 
Nuvem e formas, sopro e ar, 
Pés na grama, pés na terra, 
Água do mar, água da bica,
Noite e dia, guerra e paz, 
Tempestade e calmaria.
Tirando tudo isso e algo mais,

Rita é uma mulher
Como outra qualquer.

(Rogério de Moura)





Apóstrofos são os amigos de Jesus, que se juntaram naquela jantinha que o Michelântgelo fotografou.

(anônimo)


Arte: Paulo Lara
O QUE ACONTECEU DEPOIS?

Abriu a porta e entrou, a passos sussurrantes. 
Avistou um compartimento com um botão. Aproximou-se. 
Perguntava a si mesmo, enquanto um de seus dedos posicionava-se para pressionar aquela esfera vermelha:
- Pra que serve este bot...



Ih! Peguei na sua mão!
Juro, foi descuido!
Foi sem querer.
Sem querer,
querendo.

Te abraçei! 
Fortemente, ternamente.
Foi o acaso.
Não queria.
Querendo.

Te acariciei. 
Que estou fazendo?
Perdi a cabeça.
Foi sem querer,
Querendo.

Te beijei! 
Século que durou segundos.
Comelou sem querer.
Fui querendo...
Querendo...

(para Rita, 20/10/2016)


A necessidade é a mãe da gambiarra!


De tudo o que sobrou:
Pedra.
Flores, folhas, estatuetas
Aves, peixes, castelos...
Pedra.
Respirou, expirou, bufou
enquanto sentava-se no banco
De pedra.
De tudo, apenas o suor, líquido,
Rolando pelo rosto
Como pedra.

Rogério de Moura

"Jardim de Pedra"
Avenida Rio das Pedras, São Paulo
Foto: Rogério de Moura
Sem água ou cachaça, bebeu poesia.
Fiel pregador de dor que não aplaca
A alma em chamas pela rua vazia.
Frio sereno noturno feito estaca,
Palavra em palavra, semeou euforia,
Sonhos e murros em ponta de faca.
Nas ruas, só o encontro na boemia,
Em casa, só o encontro de ressaca.

Rogério de Moura








Aquilo brilhando lá no céu
Furo de agulha ou anel?
É planeta ou avião?
É estrela ou balão?

O que é aquilo lá no chão
Embrulhado no papelão
Tossindo sem interrupção
É ser humano ou não?

                 (Rogério de Moura)




Dia desses, flagrei os ouvidos tocando nostalgicamente o som da internet sendo acessada via discagem. Hoje em dia, diante das bandas largas, parece algo tão remoto quanto a Idade Média.

Um alarmezinho discreto sendo precedido por um chiado quase-mar.

Pelo menos um bilhão de vezes mais agradável que o tenebroso assobio do alarme de mensagens do Facebook dos celulares de hoje em dia.

Eparrei!




Há um item cristão totalmente distorcido na democracia brasileira e na maneira como os brasileiros encaram problemas e soluções: a crucificação.

Nossos problemas se resolvem quando se crucifica alguém. No caso, o "Cristo" será a Dilma. A sua crucificação nos salvará. Não precisaremos mais nos preocupar com os desmandos anteriores, atuais e vindouros. Todos estamos perdoados. Estão perdoados o Temer, o Aécio, o Sarney, o Collor, o Cunha.

Basta crucificar um. Todo o restante, perdoado está!

Eparrei!
As faixas, os cartazes e os gritos de "Fora Fulano!", "Fora Cicrano", "Fora Beltrano", deveriam ser "Voto distrital já!", "Reforma política já!".

O "Fora Fulano!" é uma coisa a ser aplicada no momento das urnas.


Para a corrupção, não pode haver atenuantes. Se direita, se esquerda, se adulto, se jovem, se idoso, se homem, se mulher, se ajudou aos ricos, se ajudou aos pobres, se tem origem abastada, se tem origem pobre, se é religoso ou não, se branco ou preto. Ato corrupto é ato corrupto.


Eis o que sobrou da democracia brasileira: corrupção e uma briga entre torcidas. Aí, a dupla Dilula (Dilma + Lula) utiliza um subterfúgio para burlar o processo contra corrupção. É nomeado ministro (ele, que condenava o artifício antes de ser governo). Os torcedores do PT comemoram. Os torcedores do outro lado (incluindo os torcedores do PSDB-Alkimin) protestam (ignorando os escândalos e desmandos do governador de SP). Juiz cassa a nomeação: os torcedores do PT protestam, os torcedores do PSDB comemoram. Corrupção mesmo, ninguém tá nem aí. 

Ninguém quer fazer passeata por uma reforma política. 

Cada lado argumenta utilizando os pobres e a pobreza (e, infelizmente, os negros) para justificar o seu argumento. Protestam com veemência contra a corrupção. Desde que não seja a do seus "times". Para os seus times, vale tudo. E o Brasil, rachado. Se eu fosse um sobrevivente da ditadura que tivesse lutado pela democracia, acho que teria dado um tiro na cabeça, tamanha a depressão.

O povão, povão mesmo, esse que ganha pouco, mora na periferia, cujo cotidiano se restringe a trabalho, salário, futebol, novela e Datena, sabe o que é "direita" ou "esquerda"?

Creio que não. Nem os mais estudados sabem direito.

Nesse rebuliço político todo, o povão acompanha pelo noticiário e fica à mercê de gente que teve acesso a uma educação mais apurada. Esse sim, fica nessa birra "direita X esquerda", d acordo com o time (partido político) que torcem.

E vivem sendo massa de manobra de um lado ou de outro.


E, convenhamos, com esse fisiologismo, esse toma lá-dá-cá da política brasileira, eu acho 
um absurdo quando conhecidos ou não ficam nesse papinho de "esquerda e direita".


Lesma e minhoca fizeram combinação. 
Queriam disputar corrida na pista de terra do quintal.
Todo mundo do universo do jardim foi convidado.
A taturana jurou que iria.
O caramujo, que não gostava de sair de casa, disse que ia assistir a transmissão pela TV. 
O tatu disse que iria ouvir pelo rádio.
O aranha iria passar o dia inteiro costurando.
As formigas tinham que trabalhar.
Os pombos estavam em assembléia nos braços de uma estátua.
O beija-flor não tinha paciência para essas coisas.
Foram convidar as baratas mas, na hora, ouviu-se um estrondo e todas saíram correndo.
A mosca suicida encontrou um prato de sopa.
O grilo, boêmio, estava de ressaca.
O gatinho foi tirar um cochilo.
O cachorro perdeu tempo afastando as galinhas.
A taturana virou casulo.
A maritaca, que jurou fazer a locução, estava com laringite.
Quase todos tinham compromissos mais importantes.
O único que viu foi o bem-te-vi.
Só contou o resultado pro papagaio ranzinza.
Que não contou pra ninguém.

(Rogério de Moura)




Antes da última incorporação, o Rogério de Moura, médium que me incorpora, veio com essa pérola:

"O Brasil é uma Dona Florinda!"

Pedi que ele me explicasse esse raciocínio. Ele disse: "Vejamos, a Dona Florinda vive num lugar humilde, com pessoas do mesmo nível. Só que se acha a grã-fina. Chama aos seus vizinhos iguais de "gentalha". O Brasil não é assim com relação à América do Sul, achando que é uma espécie de Estados Unidos latino-americano?

Eu ri um pouco. Acho que o Rogério precisa tomar umas cachaças. Bem que eu gostaria de convidá-lo para tomar umas e outras, vindas diretamente de Minas Gerais no bar do Mineirinho, aqui em frente à casa de sapê. Coincidentemente, o nome do dono do bar é Jair Rodrigues, mesmo nome do famoso cantor.

Tempos atrás, no bar do Mineirinho, aqui em frente à casa de sapê, havia um grupo de sambistas que costumava nos contemplar com clássicos do samba aos sábados e domingos. Miguel Laiá-Laiá era um desses sambistas. 

O grande problema o Miguel era sua memória curta. As doses da cachaça de Minas Gerais não eram a única razão para seus esquecimentos. Eram crônicos, independente de estar bêbado ou sóbrio.

Na hora do samba, ele sempre se esquecia da letra. Então, sempre emendava um "laiá-laiá". Então, para o Miguel, os grandes sambas de Noel Rosa, Candeias, Adoniran, Vanzolini, Ataulfo Alves, Martinho da Vila, Zeca Pagodinho, entre outros, sempre tinham um "laiá-laiá" no meio.

Por hábito, o Miguel foi estendendo esse "laiá-laiá" à sua vida cotidiana. Quando a esposa lhe perguntava o motivo de ter chegado em casa, de madrugada, bêbado, o Miguel respondia: "É porque... porque...", e como não sabia o que dizer, emendava "laiá-laiá". A esposa engolia a justificativa e voltava a dormir.
No trabalho, era a mesma coisa: chegando atrasado, patrão bronqueando e o Miguel se desculpava: "Sabe como é patrão..." e, sem ter o que emendar, começava o seu "laiá-laiá...". O patrão não só deixava para lá como lhe dava um aumento.

E assim, todos se acostumaram ao “laiá-laiá” do Miguel, bordão que o tornou uma figura popular no bairro. Tão popular que um integrante de um partido político o convidou para fazer parte do plantel de candidatos. 
O Miguel, que estava desempregado e endividado, topou. Nos santinhos, podia-se ler: "Vote em Miguel”. No lugar do bordão do candidato, lia-se: "Laiá-Laiá".

A campanha de Miguel Laiá-Laiá foi um sucesso. Assim que subiu ao palanque, saudou a multidão e, sem saber o que discursar, começou a cantar o seu "laiá-laiá" para o delírio do público. O seu “laiá-laiá” caiu na boca do povo e Miguel eleito com ampla contagem de votos. Tantos votos que outros candidatos foram eleitos graças à sua margem de votos, fazendo-o uma figura importante dentro do partido. 

No plenário, não se dava por rogado: "Quero dizer ao presidente da mesa... ‘laiá-laiá...’" E todos aplaudiam em pé. 

Para não fugir à tradição política, um dia, explodiu um escândalo. Superfaturamento, notas fiscais geladas, propinas e todo repertório “standard”.

No epicentro do escândalo, o nosso querido Miguel Laiá-Laiá. Coisa feia. Até as bolsas de valores despencaram. Diante de uma CPI, a presidência da mesa pediu para que o vereador explicasse o desvio de conduta. O sambista levantou-se de seu assento, pigarreou e disse: "Quero dizer a todos os presentes da mesa que... que...” E começou a cantar: “Laiá-laiá..."

No dia seguinte, as manchetes da imprensa diziam que estava tudo esclarecido, outros órgãos bradavam que tudo não passou de calúnias de adversários políticos. Uma importante figura do Judiciário declarou que não havia nada que justificasse uma investigação mais profunda.

E nosso querido Miguel seguiu sua ascensão política, feliz da vida, entoando o seu "laiá-laiá".

Eparrei!





Anos, muitos anos, décadas atrás. Pensando bem, mais de um século atrás, esse era um dos grandes imbróglios da vida moderna:

"Sábado último, Thomaz Antônio do Espírito Santo, ternamente apaixonado por Emma Nofs, seduziu-a e levou-a para sua casa, no Comércio da Luz.
O dr. Arthur Guimarães, zeloso subdelegado do distrito, tendo ciência do fato, para lá se dirigiiu, ontem à noite, e fez conduzir o casal de pombos para a casa do dr. juiz substituto de casamentos, onde, às 10 horas da noite, o ditoso par legitimou seu consórcio."

"Correio Paulistano, 19 de fevereiro de 1891"
Será toda lesma
um caracol sem roupas?

Será toda lesma
um caracol ao ar livre?

Será a lesma um caracol
que não pagou o aluguel?

Rinha de lesmas
quanto tempo duraria?

Quando magoadas,
lesmas choram, riem ou caminham?

Com que tipo de relógio
As lesmas marcam o tempo?

Que pensam quando se arrastam
pelo universo que cabe em meu quintal?

Rogério de Moura



Em um certo país, uma dessas poucas potências espalhadas pelo mundo, um grupo de renomados cientistas, sob a supervisão do exército, desenvolveu um computador dotado de inteligência artificial.
O equipamento, capaz de raciocinar por si, dotado de uma infinidade de informações, tinha capacidade de processamento de dados sem precedentes. Poderia elaborar qualquer raciocínio sobre qualquer assunto, de cálculos a teorias de Filosofia.
Aí, começaram os problemas…
Pediram para planejar uma maneira eficiente de invadir um certo país que, segundo eles, abrigava células terroristas. O computador recusou-se a fazer qualquer cálculo, alegando pouca consistência nos argumentos dos militares. A máquina também falou sobre a morte de inúmeras pessoas que nada tinham de envolvimento com tais células.
Outra vez, tentaram fazer com que o equipamento, via satélite, estabelecesse melhores rotas de exploração de um minério preciosíssimo em um país Sul-americano. O computador se recusou, alegando que já estava na hora de permitir que o próprio país pudesse ser beneficiado com a própria riqueza.
Pediram à máquina que monitorasse a tubulação de petróleo de um país do Oriente Médio. O computador se recusou, recomendando o desenvolvimento de energia alternativa.
Noutra ocasião, negou-se a realizar um cálculo necessário para a correção de um mecanismo de um importante aparato militar.
De que adiantava um equipamento com toda aquela inteligência mas questionando todas as ações que venham a causar danos ao planeta e a algum ser humano que nada tem a ver com o assunto?
Que deveriam fazer os renomados cientistas? Abortar o programa e renunciar à fortuna que o governo lhes fornecia?
Desde então, sob supervisão do exército, os renomados cientistas desesperadamente tentam desenvolver uma inteligência artificial que seja, não apenas, inteligente, como também dotada da ganância e da sordidez humana.


Rogério de Moura



Tijolos,
Um portão,
Bueiro,
Um orelhão.
Calçada,
Um chão,
Passos,
Uma razão.


Rogério de Moura, Jovem Preto Velho, Vila Santa Isabel
Foto: Rogério de Moura


Aproximei-me terno, gentil, amistoso…
Fugiu.
Aproximei-me lentamente, sorrindo…
Outro que foge.
Tentei ser o mais cordial possível.
Outro que alça vôo assustado.

Uma de minhas maiores tristezas é não poder conversar com os pássaros.

(Rogério de Moura)

Ilustração: Mariana Pellegrini

Não existe corretor para corretores ortográficos analfabetos.
Quem inventou o corretor ortográfico para aplicativos de celular, na certa, não sabe o que é uma saia justa.

1.
Eu te amo. Você é a pessoa mais impotente da minha vida.

2.
Trabalhei demais hoje. Estou cagado, vou pra casa dormir.

3.
Boa Noite. Durma bem e sonhe com as antas.

4.
Feliz Natal e próspero ano nojo.

5.
A comida está sem temperatura e o arroz sem saudade.

6.
Ele não trabalha direito. Vou matar ele embora.

7.
Quando voltar pra casa, passa no mercado e traga açougue.

8.
A que horas começa a reunião? Tenho medo de chegar arrasado.

9.
Querida, espera um pouco mais, que eu já estou cheirando.

10.
Amor, não demora muito. Tá começando a chover e não posso pegar uma girafa.

11.
Antes de sair, não esquece de regar a planilha.

12.
O chefe perguntou sobre o relatório. Você já passarinho pra ele?

13.
Ele leu o texto e gozou muito.

14.
O cara é boa gente. Assusta todo mundo que precisa.

15.
Ele se mete em tudo. Devia cuidar da própria vítima.

16.
Você já ouviu a música dessa bunda?

17.
Conheço esse lugar como a palma das minhas mamas.

Eparrei!*

Rogério de Moura


(É uma saudação a Orixá Iansã e significa um olá com admiração mas, o corretor ortográfico alteraria para epa errei)