Envelheci, foi sem querer.
Distraí-me alguns instantes,
adiei sonhos e planos,
congelei alguns momentos
no baú da memória,
procurei abrigo no medo do fracasso,
adormeci na promessa 
de sorrisos e afagos.
Quando finalmente despertei
olhando para as pegadas logo atrás,
eu mesmo era o passado
do qual zombava.

(Rogério de Moura)




Acima  de tudo,
tudo é vizinhança.
Acima da Terra,
tudo é céu.
Acima do mundo,
tudo é universo.
Acima do universo,
tudo é infinito.
Acima do infito,
tudo está acima de tudo.

(Rogério de Moura)





Um cão se aproximou.
O gato pensou que, se aplicasse toda a sua sabedoria felina, o canino não teria chance.
Surgiram outros cães. Em poucos instantes, uma matilha formou-se ao redor do felino.
Não havia uma árvore ou muro onde pudesse subir.
Pensou em fingir-se de morto. Mas os cães têm faro para essas ocasiões.
Estava perdido!
Súbito, começou a latir. Caninamente.
Os outros cães, a principio, estranharam. 
O gato latia, com um sotaque felino. Mas dava para entender o idioma.
Logo, todos se aproximaram, amistosamente.
E todos, inclusive o gato, juntaram-se numa árvore mais próxima. Que é o boteco dos cães.
(Rogério de Moura)


Marte, Vênus, Júpiter, Andrômeda, supernova, quasar...
Mas era só um balão.
(Rogério de Moura)


Então, no auge da angústia e do desespero, ele subiu a montanha e gritou:
"Cupido filho da mãe!"
(Rogério de Moura)


Existe um lugar nebuloso, místico, no meio do mar, para onde vão todas as perguntas não respondidas.
Quem conseguiu chegar lá, conheceu as perguntas sobre "de onde viemos?", "para onde vamos?", "como começou o Universo?", "o que existia antes do Univeso existir?", "por que existe corrupção?", "o que é ser de Direita e o que é ser de Esquerda em um país caótico como o Brasil?", "porque o eleitor brasileiro vota em políticos corruptos?" entre outras questões fundamentais da humanidade.
O lugar é conhecido como o Triângulo das Perguntas.
Houve quem buscasse esse lugar. Inúmeros curiosos.
Quem conseguiu, nunca voltou para responder.

(Rogério de Moura)


Um dos grandes efeitos colaterais das redes sociais é que as pessoas estão se esquecendo como se escreve números por extenso. 
Escrever um numeral por extenso será, para muita gente, como utilizar um telefone de discar, como máquina de datilografar, disquete de computador ou como dizer "desculpe" e "obrigado". 
Coisas que caíram em desuso, algo de um tempo totalmente distante.
(Rogério de Moura)



Água, sabão, suor
e muitos dias esfregando.
Pendurada a alma no varal,
dança conforme o vento.
Um fantasma assombrando o quintal.
Limpa totalmente não está.
Pelo menos, não cheira mal.
Estará pronta para uso,
Quando parar de chover
ou depois do vendaval.

(Rogério de Moura)



Hot dog no copo...
Não seria melhor bater tudo nem copo e vender (ou beber) como um suco?
(Rogério de Moura)


Fosse eu o curador, uma das obras-primas a figurarem no Museu do Louvre seria o jogo Brasil X Itália, da final da Copa do México, em 1970.
(Rogério de Moura)


Em muitas vezes, o maior ato de coragem é ter medo.
(RdM)


O caso aconteceu na vida real.
E eu não acreditaria se não fosse comigo.
Perdi meus óculos e fiquei três meses à deriva.
Final feliz teve essa história, pois o reencontrei (óculos sempre se reencontra, não podemos esquecer o quanto os perdemos dentro de casa).
Desta vez, os encontrei em meio às folhas secas no quintal.
(RdM)


De tanto saltar na água,
a pedra se quebrou.
Tentaram respiração gota a gota
mas não adiantou.
E não houve ressuscitação
cardiometafísica 
que a ressuscitasse.

(Rogério de Moura)


- Compre esse amendoim. Por favor, me ajuda!
- Vou levar um.
- Leva três. É promoção.
- Não tenho trocado. Só dá para levar um.
- Vai, moço! Me ajuda! 
- Desculpa!
- Preciso de dinheiro. Estou passando fome!
- Se está com tanta fome assim, por que não come o amendoim?

(RdM)


I

Escolher o sabor da pizza quando se está com fome é um dos momentos mais difíceis de uma pessoa.

II

Massa e queijo...
O resto é improviso.

III

Quem inventou a pizza gosta de comida.
Já quem inventou o tofu gosta de dietas.

(Rogério de Moura)


Mente, 
mata,
rouba,
trai,
corrompe,
destrói,
fere...
E se acha a imagem e semelhança do Criador.


(Rogério de Moura)


Acorda, levanta, come, trabalha, janta, dorme...
Acorda, levanta, come, trabalha, janta, dorme...
Acorda, levanta, come, trabalha, janta, dorme...
Ao acessar a internet, clica em "não sou um robô".

(Rogério de Moura)


Pipa
é um drone
analógico.

(Rogério de Moura)


Créditos: Getty Images

Existem incontáveis autores mais criativos do que esse que vos escreve.
Muitos deles geniais. Pela criatividade e pela simplicidade.
"Costelaria do Adão",
"Confessionário",
"Intervalo Comercial",
"Não diga que estou aqui".
Eis minha modesta contribuição:
"Pausa para Diversão"
(RdM)


No Brasil, se resolvem os problemas assim: balde para goteira.
(RdM)


Arte: Gartic.com.br
Ir ao banco e perder tempo na fila para fazer um depósito no coisa de apenas 10 reais é inconcebível e inacreditável. Mas é... Real!
(Rogério de Moura)






Foi trocar o poema com o fabricante.
Queria outro com mais intensidade.
Levou. E pouco tempo depois,
trocou por outro,
com mais sangue.
Voltou outra vez, 
pedindo outro, com mais suor.
Não bastou.
Tempos depois,
trocou por outro. 
Com mais lágrimas.
(Rogério de Moura)


Companheira de infância,
dos tempos de escola,
dos bilhetes para as namoradas,
os exames escolares,
o casamento no cartório...
Se eu visitasse a fábrica da BIC,
provavelmente choraria.
(RdM)


Brasil, campeão!
Ninguém sentiu,
nem sequer ouviu
um mísero rojão.

(RdM)

Copa América - 2019

Trocamos a posteridade
pela pôster-idade.

(RdM)


Pátria de chuteiras:
até os anos 1980
toda chuteira
era preta.

(RdM)
A chuteira do milésimo gol do Pelé.
Coisas simples da vida
satisfazem nossa missão:
um bife,
com fritas,
o arroz
e o feijão.

(Rogério de Moura)




Homens são de Marte,
Mulheres são de Vênus.
E, para complicar, creio,
meteram um planeta no meio.

(Rogério de Moura)



Quando é hora de comer, 
nós come;
quando é hora de beber,
nós bebe;
quando é hora de dormir,
nós dorme.
Quando é hora de amar,
nós não ama.

(RdM)


A relação entre o ser humano 
E o cão.
No começo era por sobrevivência.
Hoje é por solidão.

(RdM)

Foto: Sebastian Magnani


Os ônibus
ou trens ou bondes
iam passando
aos montes.

Em um deles,
o painel do destino
dizia "Felicidade".
Passou rápido demais.

(Rogério de Moura)




Almoço, lanche, 
janta, belisco.
São Paulo multicultural,
do cearense do yakissoba,
do negro do sushi,
do japonês da empada,
de todas as raças 
fazendo feijoada.

(Rogério de Moura)



A Rede Globo é engraçada...
Antes, eram os petistas que desciam a lenha:
"A Globo isso, a Globo aquilo... Isso a Globo não mostra!..."
Hoje em dia, são os bolsonaristas, dizendo praticamente a mesma coisa.
Imitando um defensor do Neymar, após o fiasco da Seleção Brasileira na Copa do Mundo da Rússia:
"Não é fácil ser Globo!"

(RdM)


Depois da tempestade...
Vem a faxina!
(RdM)


Será montanha dente
ou será caroço?
Será a montanha verruga
ou carne de osso?
Será a montanha pera ou coração?

(Rogério de Moura)



"Olha a compra!"
Momentos nostálgicos de felicidade.
"Olha a compra!"
Fusquinha enferrujado em frente ao portão.
"Olha a compra!"
Um eu-menino correndo para o quintal.
"Olha a compra!"
Depois chegava o meu pai,
que fiscalizava os funcionários
entregando a comida e os doces.
"Olha a compra!"
Depois, tudo dentro de casa.
Arroz, feijão, farinha, macarrão,
leite, doce de leite, leite condensado,
refrigerante, pão, biscoito.
A compra chegou,
trazendo alegria e barriga cheia.

(Rogério de Moura)


O ser humano se acha superior à rocha
Porque nasce, cresce e morre.
Porque chora, ri, anda e corre.
Porque ama e odeia.
Porque salva e mata.
Enquanto isso a rocha,
quieta, imóvel, sem riso,
acha graça de tudo isso.

(Rogério de Moura)


Leve ao fogo algumas nuvens,
adicione açúcar e devaneio.
Você terá muito algodão-doce
pra comer durante o recreio.

(Rogério de Moura)


 Sentado...
          à beira do caminho,
          debaixo da chuva,
          em meio a trovoadas,
          em cima dos problemas ,
          no centro do Universo .

(Rogério de Moura)


Fôssemos comparar à vida real, essa coisa criada por um tecnocrata do apocalipse, à desserviço da humanidade e do absurdo, chamada "redirect", algo realmente maligno, teríamos...
Você está no centro de São Paulo, precisa pegr um ônibus para a Lapa. Surge o veículo, com a palavra "Lapa" escrita no painel. Só que o ônibus te elva para Guaianases, Zona Leste. É necessário, portanto, voltar. 
Surge outro ônibus para a Lapa. Terminou a viagem e ele te deixou em Santo Amaro, Zona Sul.
E, de viagem em viagem, os ônibus te deixam em qualquer lugar, menos na Lapa.
Fosse o sistema aeroviário, o "redirect" deixaria você, passageiro em São Paulo com destino ao Rio de Janeiro, em pleno Amazonas. 
Te deixaria na capital fluminense apenas se você pagasse cem vezes o valor da passagem.
(Rogério de Moura)


Que segredo tem
esse tal de RG?
Na foto, ninguém fica bem.
No nome, ninguêm se vê?

(RdM)


Era mil, novecentos e alguma coisa.
Ou talvez mil e oitocentos...
ou mil, ou dois mil...
Foi quando o dia amanheceu e clareou
tudo quanto era metade deste mundo,
menos, é claro, as cavernas, algumas casas
e algumas cabeças.
Depois, anoiteceu.
E, se clareou, foi a outra parte do planeta,
com outras cavernas, casas e cabeças.
Mas nesse lugar, já era outro dia,
de mil, novecentos e alguma coisa.
Ou talvez mil e oitocentos...
ou mil, ou dois mil...

(Rogério de Moura)





Estava com muita fome.
Bem que tentou, mas não resistiu
à apenas uma colherada,
à uma simples mordida.
Foi devorando tudo,
despejando a comida
garganta abaixo.
Voraz, não parou.
Devorou a casa, a rua,
o quarteirão, a cidade.
Comeu o país e o continente
Daí, foi fácil engolir o planeta.
Não contente,
comeu outros mundos e estrelas.
Mal percebeu, devorava o universo.
Terminou devorando a si mesmo.

(Rogério de Moura)


São Paulo multicultural,
do cearense do yakissoba,
do negro do sushi,
do japonês da empada,
de todas as raças 
fazendo feijoada.

(Rogério de Moura)


Do nada,
do obscuro,
do escuro,
do não visto,
do ignorado,
do vácuo,
deste ou outro mundo,
surgiu entre os meus olhos,
uma aranha
fazendo alpinismo
num invisível fio de teia.
Me encarando 
com muitos olhos e
balançando as doze pernas.
Assoprei e,
em pânico,
ela voltou para o seu universo
ou dimensão,
onde há milhões de serea
de seis pernas curiosos
em conhecer criaturas
com dois olhos,
dois braços,
duas pernas
e uma cabeça 
cheia de dúvidas.

(Rogério de Moura)




Folha de papel dobrada e nas mãos do pequenino nasceu um avião.
A janela se fez aeroporto e o miúdo aeroplano, tatuado de rabiscos de giz de cera
cada vez mais alto voava, escalando cada degrau do vento.
Contornou edifícios, desviou-se de pombas e antenas.
Viu prédios se espremendo nos quarteirões,
Viu carros se espremendo nas ruas,
Viu pessoas se espremendo nos prédios, nos carros e nas ruas,
Viu cada janela guardar sua pequena história:
Um casal de velhinhos assistindo televisão,
Uma bebê chorando no colo da mãe,
Um jovem casal discutindo coisa qualquer.
Da janela de sua casa, o menino era passageiro
Com o bilhete de passagem que ia imaginando.
Nas asas do pequeno avião conheceu culturas, idiomas, comidas
Faunas e floras que nunca havia imaginado antes.
Quanto tempo durou a viagem? Semanas, dias, meses... Ou apenas segundos?
Ao fim da jornada, o pequeno avião pousou.
Mal teve tempo de taxiar: o pneu de um automóvel passou por cima.
E o avião voltou a ser uma folha de papel.

(Rogério de Moura)



Ilustração: Rogério de Moura

A fome
só alimenta 
a próxima fome.

(RdM)



Andar apressado
só aumenta
a pressa.

(RdM)


O segredo da alegria
tem nome: Maria. 
A graça plena
tem rosto: Helena.
Maria Helena... Maria...
sem você, meu mundo não sorriria.

(Rogério de Moura)