Choveu uma semana inteira
E o teto danou a chorar
Corri com o balde para colher uma goteira
Outra surgiu. Qual delas guardar?
Cada universo deve de assim nascer,
Como uma goteira no teto.

(Rogério de Moura)


Não foi um acidente,
Tampouco uma trombada,
Muito menos abalroamento:
Dois veículos queriam
Cumprimentar um ao outro,
Mas não tinham mãos.


(Rogério de Moura)


 
Para ela, era para ser um momento de amor, devaneio, delírios e muito coito (será que ainda utilizam essa palavra hoje em dia?).
Para ele também. Um momento de prazer quebrando uma estressante semana de muito trabalho e pouca compensação financeira.
Um motel barato com pernoite acessível. Quartos confortáveis, aparelho de som, banheira de hidromassagem e televisão.
Foi esse o problema.
Ao ligar o aparelho, esperando ver um filme pornográfico para apimentar o momento... Futebol!
Como? Na correria, o casal se esqueceu que a noite gloriosa coincidia com a decisão do campeonato.
Ela torcia para um dos finalistas. Ele, para o time adversário. A rivalidade era motivo de piadinhas entre os dois, que tiravam de letra aquela rivalidade. Afinal, o amor prevalecia.
Até aquela noite, que seria de romance, coito e idílio (será que ainda usam essa palavra hoje em dia?).
Os casais dos quartos vizinhos ouviram, não dois casais fazendo amor, mas dois torcedores torcendo cada qual para o seu time.

Motel e futebol: dois patrimônios nacionais.

                                                                                                     (Rogério de Moura)



No chão, em meio a bitucas de cigarro e restos de restos, um mendigo dormia, sonhando um amor e uma cama.
Logo acima, um velho senhor de bronze fazia cara de sério enquanto ostentava um olhar de quem fez algo importante.
Acima disso tudo, um pombo cagava na velha cabeça de bronze, enquanto vigiava as janelas dos edifícios e as pessoas ansiosas no ponto de ônibus.
Será que os espíritos dos homenageados se incomodam com os pombos que defecam na cabeça de suas estátuas?
(Rogério de Moura)



As pessoas podem até se recusar a admitir, mas os gatos dão, para aqueles que os veem (inclusos aqueles que os tocam ou, melhor ainda, os que os acariciam) uma espécie de embriaguez.
Eles são uma espécie de cachaça, cerveja ou outra coisa mais ilícita, onde o sujeito relaxa, interrompe a correria do dia-a-dia e se tranquiliza, refletindo que a vida não precisava ser assim.
Principalmente se eles estiverem dormindo, o que fazem em oitenta por cento de seus tempos.
Como sempre acontece nesses casos, vai chegar um dia em que serão proibidos.
Os felinos não são tão carentes como os cães: se o dono der um pontapé em seu cachorro, eterno submisso, no dia seguinte, não cobrará por tal atitude, ao contrário dos felinos.
Por isso, há quem prefira cachorros em detrimento aos gatos: os cães fazem as pessoas se sentirem mais importantes do que elas são na realidade.
(RdM)


 
Todo ser vivo é composto por moléculas,q ue são compostas por átomos.
Cada átomo contém prótons, elétrons e nêutrons.
Até aí, todo mundo sabe. O que pouca gente imagina é que cada próton, elétron ou nêutron é composto por universos.
Cada universo é composto por galáxias, que contém incontáveis sistemas solares, cada qual com diversos planetas.
Um deles é o planeta onde estamos.
Mesmo assim, somos muito menores que os átomos deles. E esses seres vivos gigantescos não conseguem nos enxergar com seus microscópios.
Estamos neles. Somos partes deles.
E eles são parte de nós.
(Rogério de Moura)



Numa noite de poucas nuvens vinha se aproximando um disco voador.
Luzes vibrantes, movimentos velozes...
Logo me imaginei fazendo contato e conhecendo mundos, sistemas políticos e religiões diferentes.
Mas era apenas um helicóptero brincando de ser disco voador.


(RdM)



Despensa vazia.
Mas, pensando bem,
nem despensa tinha.
Geladeira vazia.
Olhando com mais apuro:
Uma caixa enferrujada.
Caminhando pela rua.
Imaginando o que comer
Sem ter dinheiro pra comer.
Um saco de arroz, na sarjeta, rasgado.
Paciência, pá e vassoura:
Terá a janta essa noite.
A vida inventou de ser assim:
decorada com pequenos milagres.
(RdM, 03/05/2017)





Outra vez!
Será intencional
O breve susto
Que as sombras nos pregam?


(RdM)

 
O apaixonado escreveu um poema para sua musa, resultado de horas e horas pensando, matutando, sofrendo, sangrando por dentro. 
Enviou para a amada via Facebook e ficou aguardando o retorno. Em cada minuto, um século de ansiedade e expectativa, imaginando-a dizendo coisas doces como: "Adorei! Vamos nos encontrar?", "Amei! "," Que lindo!" e, na melhor das hipóteses, um "eu te amo".
Foi quando chegou a resposta: "👍".

(RdM)



Tocou a campainha.
Era o carteiro.
Suor na testa, mochila no ombro, carta nas mãos.
Era um convite com Aviso de Recebimento.
Escrito pelo vizinho:
Um caramujo que adotou o meu quintal.
Convidou-me para tomar cerveja,
Ver um clássico do futebol,
Rir e falar coisa à toa.
Em sua concha.
Vai ter churrasco.
Sem sal.


(RdM)





No princípio, tudo era nada,
Ao mesmo tempo em que
Tudo era um,
Ao mesmo tempo em que
Tudo era todos. 

(RdM)

Finalmente arrumou o quarto.
Não porque a mãe estava pedindo há meses (ou anos?).
Não por questões higiênicas, médicas, humanitárias.
Arrumou o quarto porque procurava moedas para colocar créditos no celular pré-pago.

RdM



Ao ver as lágrimas correndo pelo rosto da dona da casa, chegou bem pertinho de seu ouvido e sussurrou. Ela não ouviu.
Então, gritou. Em vão, afastada com um brusco gesto de mão.
Distanciou-se e, novamente, sentindo piedade, reaproximou-se. Dessa vez, tentou dizer que houve problemas mais graves, que este era mais um deles e que, com o tempo superaria.
Não foi ouvida.
Pensou em desistir. Não se conteve. Retornou.
Dessa vez, duas mãos a esmagaram. Seu corpo, ainda com espasmos, parou em um canto empoeirado da sala.
Que pena! Ninguém havia avisado àquela mosca dos riscos de se tentar consolar o dono da casa onde está voando. Principalmente se não souber falar a língua dos humanos.

Rogério de Moura


 
Em seu currículo, escaladas de alturas inimagináveis em edifícios vertiginosos. Muitas vezes caiu, feriu-se e levou meses para se recuperar. São incontáveis as vezes em que fugiu e escapou da polícia.
Graças a ele, entre outros pixadores, não há centímetro da cidade que não seja "tatuado" pelas ilegíveis assinaturas pessoais.
Graças a ele e seus colegas, as paredes das casas, fachadas de lojas e edifícios parecem estar com uma espécie de "sarampo urbano". Com orgulho, comenta suas façanhas, sempre arrematando com a frase: "O bagulho é louco, truta!"
Curiosamente, as paredes e os muros de sua casa são limpinhos. Houve um dia em que, ao flagrar um colega pixando o muro, deu-lhe uns socos e pontapés.

Rogério de Moura


Corra, que o lixeiro tá chegando!
Corra, que o caminhão dos coletores de lixo, 
Avança, dobrando a esquina.
Retire de casa, retire da alma
E coloque em sacos, sacolas,
Ou nas antigas latas de lixo,
As mágoas e as promessas não cumpridas,
As dores sem aprendizado,
Os gritos não ouvidos,
Os apelos inúteis,
As mensagens e cartas não lidas,
Cumprimentos falsos, 
Sorrisos falsos.
Eternas, erradas e inúteis discussões
Entre partidos de Esquerda e Direita.
Teses baseadas em preconceitos.
Quem não passa para outros o que aprendeu,
Quem corrompe e, à noite, dorme em paz,
Quem diz fazer o bem fazendo o mal,
Quem julga sem juízo,
Quem ama odiando,
Quem mente dizendo verdades,
Quem sorri falsamente,
Quem chora falsamente.
Coloque no lixo tudo que não tenha paixão
Deixe tudo na calçada
E faça votos que o lixeiro leve
A tudo sem triar, sem escolher,
Sem pedir gorjeta.
Corra, que o lixeiro tá chegando!
(RdM)


O cachorro, o carteiro e a carta.
O cachorro latindo para o carteiro colocando a carta na caixa de correspondências.
O cachorro, triste por seu dono deixá-lo na coleira.
O carteiro triste pelo seu salário e por suas contas.
A carta... uma conta.

(Rogério de Moura)

Caixa do Correio, foto Rogério de Moura

Quando se é jovem, o que acontece?
A missão de conhecer o mundo.
E depois do depois, quando se envelhece?
Qhando o tempo escapa da coleira
Lembramos de Deus e seu silêncio profundo.
A missão do envelhecer é conhecer a si mesmo.

(Rogério de Moura)


E o dia, em pânico, fugiu.
Tentaram caçá-lo em vão
Através da risonha escuridão.
Perguntaram. Ninguém viu.

Chamaram bombeiro, polícia.
Dia, correndo, ninguém alcança
Seja homem, mulher, idoso, criança.
Não houve quem desse notícia.

Quem desse pista, esperança.
Enquanto isso, uma janela se escondia
A tudo viu. E não delatou o dia
Porque tinha medo de vingança.

(RdM)



Dezenove, dezenove e pouco...
Dezenove, dezenove e muito...
Fez de conta que era meia-noite,
O sol mal havia dobrado a esquina.
Fez de conta que era lua cheia
Mas era apenas luz de um poste.
Imaginou que de casa perto estava.
Casa? Daquelas que se chamam lar? Dem tinha. 
Dele mesmo, só estômago roncando,
Par de pés: solas, unhas e verrugas feito brasas.
Saía das casas o cheiro da janta
Perfumando uma noite ainda de fraldas.
Longe de pousada, de repouso, de paz,
De trocar prosa com o compadre pestana.

(Rogério de Moura)

Ilustração: Rogério de Moura

E Deus nos criou à sua imagem e semelhança. E quanto ao resto. Não?

Se o ser humano simplesmente desaparecesse da face da terra...
Os únicos que sentiriam nossa falta seriam os animais domésticos.
Os dependentes, pereceriam, com certeza. Os demais, adotariam uma vida selvagem, caçando para sua sobrevivência.

O ar atingiria níveis de pureza inimagináveis.

Fauna e flora atingiriam sua plenitude em menos de cem anos.

Espécies em extinção voltariam a se multiplicar.

Ecossistemas seriam recuperados. Novos seriam criados.

Em centenas de anos, edificações, por mais resistentes, ruiriam.

Estradas seriam cobertas por vegetações.

Corrupção, violência, poluição, ganância...

Somos assim tão divinos?

(Rogério de Moura)

Se você quiser frutas e legumes realmente saudáveis, tem que plantá-los no seu quintal.

E, pelo jeito, se quiser comer carne bovina saudável, também vai ter que criá-lo no seu quintal.

Eparrei!

Ela foi cercada, agredida e morta. Durante a agressão, ninguém se aproximou para defendê-la. Enquanto ela agonizava, ninguém para socorrê-la. 
E agora, com o corpo estendido na calçada, ninguém para velá-la. Não houve quem se importasse com o que estava acontecendo, sob o sol do meio dia, na calçada de uma grande metrópole. 
Um carteiro que passava por lá não percebeu. Muito menos um senhor. Atrasado para o trabalho. Tampouco uma mãe que estava levando os filhos para a escola. Um dos filhos reparou no acontecia e apontou o dedo. A mãe, alheia, o puxou, arrastando-o na direção da escola. Afinal, estavam atrasados. 
Não contentes, os vorazes agressores começaram a esquartejar a vítima. Os carros que passavam não pararam. Um pipoqueiro que passava pelo lugar não deu a mínima importância. 
Chegou a polícia! Finalmente haveria alguma reação. Nada. Os dois policiais passaram bem ao lado, calmamente, conversando entre si. 
Eis que os assassinos começaram a comer a vítima, enquanto outros comparsas se afastavam, levando alguns pedaços consigo. 
Violência brutal e desmedida, em plena luz do dia. Mas é um mundo violento. Duvida-se que irá, no dia seguinte, figurar entre as manchetes dos jornais. 
Um fato despercebido por acontecer entre uma pobre vespa e um bando de formigas. 

(Rogério de Moura) 


- Meu esquete é assaz melhor que o seu!

- Divirjo! Divirjo veementemente!

- Filho de uma lambisgóia!

- O cavalheiro está ofendendo a minha progenitora! Queira, por obséquio, retirar a ofensa!

- De modo algum, pelo contrário. Reitero com veemência: sua progenitora está longe de ser uma dama!

- Eu repilo! Eu repilo! Insisto que retire imediatamente tais afirmações!

- Quem se recusa sou eu em tirá-las! Nego peremptoriamente!

Começam a brigar. Na arquibancada, inicia-se um tumulto, gereralizando em socos e pontapés. O vendedor de grapette saiu correndo, seguido pelo vendedor de bijús, em pânico. 

Instantes depois, ternos rasgados, sapatos e chapéus para tudo quanto é lado.
Um ferido lamentava-se com os olhos marejados:

- Meu bigode! Arrancaram o meu bigode!

(Rogério de Moura)


Quando aquilo começou? Desde que faleceu sua esposa. Ao mesmo tempo, companheira, testemunha, amiga, amante, conselheira. Seu único alicerce. 

O mundo deixou de ter sentido. Restou-lhe um banco de praça e migalhas de pão que jogava aos pombos. Alimentava as aves. Olhos tristes, embalados em lágrimas. Com o avançar dessa rotina, passou a reconhecer cada pombos. Bicos, penas, tonalidades, feridas. Casais. Podia dar-lhe nome, se tivesse ânimo para isso. Os pombos também o reconheciam. Bastava sentar-se no banco e pousavam ao seu redor aguardando pelas migalhas que ele não negava. 

O viúvo ficou seriamente doente. Deitado em seu leito, através da janela, podia ver as janelas dos outros prédios. Um pombo pousou no parapeito da janela. “Igualzinho ao pombo da praça”, pensou. Juntou-se outro pombo. Também semelhante ao pombo que alimentava na praça. Outros pombos juntaram-se. Observou-os com maior atenção. Reconheceu-os. Eram os mesmos pombos da praça. 

Durante uma semana, os pombos da praça iam visitá-lo. Às vezes, uma enfermeira entrava no quarto e iniciava um histérico e inútil trabalho para enxotá-los. Um dia, nenhum pombo pousou no parapeito daquela janela de hospital. No dia seguinte, o viúvo teve alta. 

No dia seguinte, lá estava ele, sorriso no rosto, alimentando os pombos, para revolta de alguns pedestres para quem as aves eram "ratos de asas". 

(Rogério de Moura)

Pintura de Denise Ludwig.

Quando crianças, sempre temos algumas dúvidas tolas. Crescemos, envelhecemos, e nossas dúvidas tornam-se cada vez mais tolas.

Quanto às dúvidas infantis, uma questão fez parte do meu imaginário por todos meus "melhores anos". Pensando bem, perdura até hoje: "como é que Jesus nascia no fim do ano, dois meses depois as pessoas faziam uma festa pagã e dois meses depois matavam o pobre rapaz?"

(RdM)



É engraçado conversar com petistas sobre Cuba. O militante estufa o peito e começa uma longa defesa sobre esse pequeno país. Do sistema de ensino aos avanços da medicina. Depois, é claro, ataca o imperialismo dos Estados Unidos. 

Mas, só existe Cuba? Se você falar da União Soviética, da China, da Coréia do Norte e do Stalin, eles mudam de assunto. 

Um petista, amigo meu, chegou a falar que a China não era comunista, era capitalista. 
Segundo a Encruzilhadapedia, a bandeira nacional da República Popular da China é vermelha com cinco estrelas amarelas no canto superior esquerdo. Todas as estrelas são de cinco pontas, sendo que a estrela maior simboliza o PCC (estamos falando do Partido Comunista da China, pelo amor de Deus!), e as quatro menores estrelas simbolizam o povo chinês. A relação das estrelas significa a união popular sob o comando do PCC. A cor vermelha da bandeira simboliza a revolução de 1949, e a cor amarela das estrelas é para destacar a claridade da terra vermelha.

Eparrei!




Urbano.
Rural.

Antigo.
Moderno.

Par de tênis no fio que cruza a rua.
Chuva chovendo no horizonte.

Asfalto.
Plantações.

Bois.
Carros.

Vilarejos. Telhado de barro.
Condomínios. Laje.

Buzinas. Sirenes. Gritos de motocicletas.
Gorgeios. Cricrilar. Galo cantando.

Autofalante falando sobre a morte de um ilustre da cidade.
Autofalante anunciando "pamonhas de Piracicaba".

Praças com velhihos fofocando.
Praça com velhinhos jogando dominó.

Pombo ciscando no chão.
Pombo ciscando no chão.

Baratas.
Baratas.

Pernilongo beliscando.
Pernilongo beliscando.

(RdM)





Não se apaixone,
Nunca!
Jamais!
Você pode fazer coisas terríveis
Contra si mesmo!

(RdM)
Um dos maiores reverses das tripas...
E, de repente, o vômito.
E, por um bom tempo, foi saindo tudo,l
Faltando ar, quase saindo as entranhas.
No final do impulso imposto, 
Tentando buscar o ar que fugiu da respiração,
Foi como se vomitasse o universo.
Teria criado outro?

(RdM)
Depois dos últimos ecos da trovoada
Quem irá calar as primeiras gotas de chuva?
Os telhados? De barro, de zinco, de eternit?
Ou serão as folhas das copas das árvores?
A parede de um prédio? 
O chiar do pneu no asfalto?
O ladrilho do chão do quintal?
O chacoalhar de um cão que fugiu das águas?
E quem avisará as formigas sobre a enxurrada?

(RdM)


Relâmpago,
Se debaixo da terra estivesse
Seria raiz.

(RdM)


Algo escorregadio esmagado debaixo da sola...
Como avisar aos caramujos, aos caracóis, às minhocas,
Sobre os perigos de se arrastar pelo piso de uma casa à noite
Sob a penumbra?

(Rogério de Moura)


Primeiro filme no DVD. Na cena, uma copeira entra no quarto, vê um corpo estendido no chão e grita.
Segundo filme no DVD. Na cena, uma copeira entra no quarto  e, na cama, um casal morto violentamente. Gritos.

Terceira obra audiovisual no DVD. Novamente estavam lá, a copeira, os corpos, o grito.
Homenagem à uma figura clássica do cinema que pouca gente fala: a copeira que entra no quarto só para gritar, depois de ver o morto (ou mortos), no chão ou na cama. Viva a copeira do grito!
Era uma vez uma gotinha. Uma gotinha d´água muito bonitinha.

A gotinha d'água gostava muito de brincar com suas amiguinhas, gotinhas iguais a ela. Foi quando fizeram a primeira poça.

Depois, transformadas em vapor, fizeram a primeira nuvem. Juntando-se depois na primeira chuva.

A gotinha nunca se esqueceu do dia em que ela e suas amiguinhas correram pela sarjeta, juntando-se com milhares de outras gotas em um córrego. Ela só não gostou da sujeira porque havia muitas fezes, móveis, colchões, restos de bicho morto e, de vez em quando, surgia um pedaço de partes humanas.

Também não se esqueceu do dia em que, sendo chuva, caiu na boca de uma criança.

Um belo dia, a gotinha d´água se juntou com outras gotinhas e depois com outras e mais outras.

E, todas juntas, fizeram uma enchente, matando uma porção de pessoas.

As pessoas que sobreviveram choraram muitas outras gotinhas d'água.


(Rogério de Moura)


Erros gramaticais também resultam em poesia.
Que o diga quem toma sopa de letrinhas.

(Rogério de Moura)


O funcionário da paróquia estava fechando os portões da igreja,quando um mendigo, que costumava a dormir pelos arredores, entrou correndo:
- Não fecha ainda! Não fecha!
O funcionário estranhou a afobação do sem-teto, mas logo, tudo se elucidou, ao ver o sujeito entrando para recolher o seu celular, que deixou para carregar numa das tomadas.

(Rogério de Moura)




Se estou com os dias contados,
não quero saber,
jamais,
para não praticar a Matemática.

(Rogério de Moura)




Ouviu-se um pneu derrapando e logo depois uma buzina e, quem olhasse para essa direção, veria dois motoristas discutindo, cada qual achando que tinha razão.

Um cão passou perto, pouco se importando com os gritos dos motoristas e, na casa em frente, entrou pelo vão do portão. Espreguiçou-se... Por que os cães fazem aquele rodopio antes se deitarem? Repousado no chão, fechou os olhos e invocou o seu sagrado cochilo.

Pouco importou-se com um sabiá que roubava sua comida, naquela marmita sem tampa, onde seu dono havia colocado uma porção da ração diária.

(Rogério de Moura)


Manhã, o sabiá, o bem-te-vi e o caminhão do gás,
Tarde, camnhão do gás, carro das pamonhas de Piracicaba;
Noite, o berro das motocicletas das pizzarias,
Sempre e a qualquer hora: o som do carteiro trazendo contas.

(Rogério de Moura)


Resultado de imagem para sons ilustração


Rita é uma mulher 
como outra qualquer.

Só que com céu e estrelas,
Vento e brisa, sol e lua, 
Nuvem e formas, sopro e ar, 
Pés na grama, pés na terra, 
Água do mar, água da bica,
Noite e dia, guerra e paz, 
Tempestade e calmaria.
Tirando tudo isso e algo mais,

Rita é uma mulher
Como outra qualquer.

(Rogério de Moura)





Apóstrofos são os amigos de Jesus, que se juntaram naquela jantinha que o Michelântgelo fotografou.

(anônimo)


Arte: Paulo Lara
O QUE ACONTECEU DEPOIS?

Abriu a porta e entrou, a passos sussurrantes. 
Avistou um compartimento com um botão. Aproximou-se. 
Perguntava a si mesmo, enquanto um de seus dedos posicionava-se para pressionar aquela esfera vermelha:
- Pra que serve este bot...



Ih! Peguei na sua mão!
Juro, foi descuido!
Foi sem querer.
Sem querer,
querendo.

Te abraçei! 
Fortemente, ternamente.
Foi o acaso.
Não queria.
Querendo.

Te acariciei. 
Que estou fazendo?
Perdi a cabeça.
Foi sem querer,
Querendo.

Te beijei! 
Século que durou segundos.
Comelou sem querer.
Fui querendo...
Querendo...

(para Rita, 20/10/2016)


A necessidade é a mãe da gambiarra!


De tudo o que sobrou:
Pedra.
Flores, folhas, estatuetas
Aves, peixes, castelos...
Pedra.
Respirou, expirou, bufou
enquanto sentava-se no banco
De pedra.
De tudo, apenas o suor, líquido,
Rolando pelo rosto
Como pedra.

Rogério de Moura

"Jardim de Pedra"
Avenida Rio das Pedras, São Paulo
Foto: Rogério de Moura
Sem água ou cachaça, bebeu poesia.
Fiel pregador de dor que não aplaca
A alma em chamas pela rua vazia.
Frio sereno noturno feito estaca,
Palavra em palavra, semeou euforia,
Sonhos e murros em ponta de faca.
Nas ruas, só o encontro na boemia,
Em casa, só o encontro de ressaca.

Rogério de Moura








Aquilo brilhando lá no céu
Furo de agulha ou anel?
É planeta ou avião?
É estrela ou balão?

O que é aquilo lá no chão
Embrulhado no papelão
Tossindo sem interrupção
É ser humano ou não?

                 (Rogério de Moura)




Dia desses, flagrei os ouvidos tocando nostalgicamente o som da internet sendo acessada via discagem. Hoje em dia, diante das bandas largas, parece algo tão remoto quanto a Idade Média.

Um alarmezinho discreto sendo precedido por um chiado quase-mar.

Pelo menos um bilhão de vezes mais agradável que o tenebroso assobio do alarme de mensagens do Facebook dos celulares de hoje em dia.

Eparrei!




Há um item cristão totalmente distorcido na democracia brasileira e na maneira como os brasileiros encaram problemas e soluções: a crucificação.

Nossos problemas se resolvem quando se crucifica alguém. No caso, o "Cristo" será a Dilma. A sua crucificação nos salvará. Não precisaremos mais nos preocupar com os desmandos anteriores, atuais e vindouros. Todos estamos perdoados. Estão perdoados o Temer, o Aécio, o Sarney, o Collor, o Cunha.

Basta crucificar um. Todo o restante, perdoado está!

Eparrei!
As faixas, os cartazes e os gritos de "Fora Fulano!", "Fora Cicrano", "Fora Beltrano", deveriam ser "Voto distrital já!", "Reforma política já!".

O "Fora Fulano!" é uma coisa a ser aplicada no momento das urnas.


Para a corrupção, não pode haver atenuantes. Se direita, se esquerda, se adulto, se jovem, se idoso, se homem, se mulher, se ajudou aos ricos, se ajudou aos pobres, se tem origem abastada, se tem origem pobre, se é religoso ou não, se branco ou preto. Ato corrupto é ato corrupto.


Eis o que sobrou da democracia brasileira: corrupção e uma briga entre torcidas. Aí, a dupla Dilula (Dilma + Lula) utiliza um subterfúgio para burlar o processo contra corrupção. É nomeado ministro (ele, que condenava o artifício antes de ser governo). Os torcedores do PT comemoram. Os torcedores do outro lado (incluindo os torcedores do PSDB-Alkimin) protestam (ignorando os escândalos e desmandos do governador de SP). Juiz cassa a nomeação: os torcedores do PT protestam, os torcedores do PSDB comemoram. Corrupção mesmo, ninguém tá nem aí. 

Ninguém quer fazer passeata por uma reforma política. 

Cada lado argumenta utilizando os pobres e a pobreza (e, infelizmente, os negros) para justificar o seu argumento. Protestam com veemência contra a corrupção. Desde que não seja a do seus "times". Para os seus times, vale tudo. E o Brasil, rachado. Se eu fosse um sobrevivente da ditadura que tivesse lutado pela democracia, acho que teria dado um tiro na cabeça, tamanha a depressão.

O povão, povão mesmo, esse que ganha pouco, mora na periferia, cujo cotidiano se restringe a trabalho, salário, futebol, novela e Datena, sabe o que é "direita" ou "esquerda"?

Creio que não. Nem os mais estudados sabem direito.

Nesse rebuliço político todo, o povão acompanha pelo noticiário e fica à mercê de gente que teve acesso a uma educação mais apurada. Esse sim, fica nessa birra "direita X esquerda", d acordo com o time (partido político) que torcem.

E vivem sendo massa de manobra de um lado ou de outro.


E, convenhamos, com esse fisiologismo, esse toma lá-dá-cá da política brasileira, eu acho 
um absurdo quando conhecidos ou não ficam nesse papinho de "esquerda e direita".


Lesma e minhoca fizeram combinação. 
Queriam disputar corrida na pista de terra do quintal.
Todo mundo do universo do jardim foi convidado.
A taturana jurou que iria.
O caramujo, que não gostava de sair de casa, disse que ia assistir a transmissão pela TV. 
O tatu disse que iria ouvir pelo rádio.
O aranha iria passar o dia inteiro costurando.
As formigas tinham que trabalhar.
Os pombos estavam em assembléia nos braços de uma estátua.
O beija-flor não tinha paciência para essas coisas.
Foram convidar as baratas mas, na hora, ouviu-se um estrondo e todas saíram correndo.
A mosca suicida encontrou um prato de sopa.
O grilo, boêmio, estava de ressaca.
O gatinho foi tirar um cochilo.
O cachorro perdeu tempo afastando as galinhas.
A taturana virou casulo.
A maritaca, que jurou fazer a locução, estava com laringite.
Quase todos tinham compromissos mais importantes.
O único que viu foi o bem-te-vi.
Só contou o resultado pro papagaio ranzinza.
Que não contou pra ninguém.

(Rogério de Moura)