terça-feira, 16 de setembro de 2014

Que fim levou o 7 de Setembro?

Chegando em 16 de Setembro, o mediu cinematográfico Rogério de Moura, que me incorpora de vez em quando, sentiu a sensação de ter esquecido algo. Como alguém que sai apressadamente de casa e tem a sensação de que deixou algo em casa. Vasculha nos bolsos, a carteira está lá, e também o celular, as chaves. Põe a mão no rosto e vê que não esqueceu os óculos. A cabeça também estava no pescoço. O que havia esquecido?

Subitamente, lembra-se: o 7 de Setembro!

Cadê o 7 de Setembro? Onde foi parar? Caiu no chão durante a correria? Ficou no vão do sofá, atrás da poltrona? No chão do ônibus ou do metrô? Quem sabe o encontramos no Achados e Perdidos, junto com dentaduras, óculos, guarda-chuvas?

Passamos pelo sétimo dia de setembro e ninguém tocou no assunto.

Hoje é dia 16 de setembro. E o mês de Setembro, pouco tempo atrás, evocava a algo que hoje em dia era remoto: o mês da Independência, do "Ouviram do Ipiranga", o quadro do Pedro Américo, no qual Dom Pedro II levantando a espada em meio aos soldados, do caboclo quase seminu assistindo a cena.

Sabemos que não foi bem assim. Que o casebre do Ipiranga não estava lá, que o Dom Pedro II não estava vestido daquele jeito, que, segundo alguns historiadores, carecia de uma diarreia fortíssima no dia e no momento histórico.

Para muitos, principalmente os mais jovens, essa data representa repressão, Ditadura Militar, professores opressores, obrigatoriedade de se decorar o Hino Nacional e entoá-lo com a mão direita sobre lado esquerdo do peito.

Muitas pessoas hão de se lembrar que, quando criança, era uma data importantíssima. Tinha os Dragões da Independência, o filme do Tarcísio Meira fazendo o Dom Pedro II, desfile, parada, Hino Nacional e o escambau. Todo mundo dizia, de boca cheia: "Semana da Independência". Os professores pediam trabalhos escolares, redações e... É claro, o escambau.

Passou tão despercebido que nem acho que nem a imprensa tocou no assunto.

O dia 7 de Setembro passou para a galeria das datas e lembranças perdidas na memória.

Ou, como diria o Lula: "Nunca, na história deste país, o 7 de Setembro..."

Voltando ao mundo espiritual, no Beco do Além, na Esquina das Almas Angustiadas, encontrei o Pedro Américo, autor da pintura da Independência do Brasil. Estava triste pelo esquecimento de tão célebre data. Perguntei para ele não pintou a cena da Independência tal qual ela aconteceu na realidade. Ele foi lacônico:

"Liberdade poética. Mente-se descaradamente para se tornar uma situação mais atraente. Os políticos sempre utilizam isso durante as eleições."


Eparrei!

(Rogério de Moura)



sábado, 13 de setembro de 2014

O conceito de mulato no Brasil

Negros Geniais, negritude, preconceito racial, racismo, ação afirmativa, Rogério de Moura, mulato

O conceito de mulato, no Brasil, é relativo.

Mulato no Brasil...

É negro quando...
Precisa de emprego,
precisa de escola,
precisa de moradia
precisa de transporte.

É branco quando...
Torna-se alguém de sucesso,
torna-se um escritor conceituado (Machado de Assis, Lima Barreto...),
torna-se presidente do Brasil (Nilo Peçanha),
torna-se um artista conceituado (Chiquinha Gonzaga, Paulinho da Viola, Jece Valadão),
torna-se um jogador de futebol bem sucedido (exemplos não faltam).

(Rogério de Moura)

Coisas entre o Céu, a Terra e um banco de praça

Ninguém percebeu:
Um mendigo acordou, em meio a farrapos, entulhos ressaca e fome.
Despertou e bocejou a vida.
Agradeceu ao banco de praça onde dormia
Varreu a praça e foi embora.

Ninguém percebeu:
Um garoto tentando roubar os celulares de dois meninos,
Uma família humilde dividir uma refeição,
Crianças de rua brincando com materiais escolares catados no lixo,
Um velho tocador de violino, uma dupla de repentistas,
Um jovem casal de namorados surpreendidos com a gravidez da garota.
Um traficante de drogas fazendo negociação,
Um empregado, um desempregado
Um bêbado usando o vento como muleta.

Ninguém percebeu:
Uma taturana arrastando-se pelo tronco de uma árvore,
Uma procissão de formigas pela rachadura da calçada,
Uma planta nascendo em meio ao capim de um buraco.

Ninguém percebeu:
Que, quando choveu, um viralatas abrigou-se debaixo do banco 
Cumprimentando um casal de pombos.

Ninguém percebeu:
Nem polícia, nem políticos, nem o povo.
À noite, o mendigo retornou, 
com seu mundo amontoado em um carrinho de supermercado enferrujado,
Desejou boa noite ao banco e dormiu.

Ninguém percebeu.


Rogério de Moura




Moeda que cai no chão e se esconde

Geralmente, a moeda que cai no chão e se esconde em alguma fresta, obrigando-nos a uma jornada em sua busca, é a de cinco centavos.

A alma do pobre Tiradentes deve estar angustiada diante de sua segunda "Inconfidência Mineira".

Eparrei!




domingo, 31 de agosto de 2014

Até que a dose os separe


Erasmo e sua esposa. Ele gostava de beber. Muito. Ela ficou doente. Câncer. Os médicos, disfarçadamente, recomendavam ao marido para que já providenciasse um caixão, duvidando haver alguma chance dela continuar viva dentro de, no máximo, alguns poucos meses.

Em desespero, Erasmo foi à igreja de Nossa Senhora de Fátima, o mesmo nome da esposa, para fazer uma promessa: se a ela se curasse, pararia de beber.

E o milagre aconteceu. Ela não apenas se curou, mas continuou uma mulher belíssima, sem a mínima sequela do que havia sofrido. Erasmo parou de beber. E assim, o casal viveu feliz por muitos anos.

Ao final desses anos felizes, as finanças de Flávio não iam muito bem. As discussões conjugais, que eram raras, começaram a se tornar frequentes. Houve o inevitável: Fátima abandonou o marido. 

Quanto a Erasmo... Ele voltou a beber. 

Só Deus sabe a respeito das tentações e privações que ele enfrentou ao longo dos anos de abstinência, firme na meta de cumprir a promessa feita. Festas, churrascadas, feijoadas, comemorações, aniversários, finais de futebol, ansiedade, alegrias, tristezas... No boteco, rodeado de amigos, ele pensa que devia agradecer a esposa por tê-lo abandonado.

Rogério de Moura



O salvador do salvador da pátria

O salvador da pátria: o povo vai às urnas para votar no "salvador da pátria". Besteira feita, nas eleições seguintes, vai às urnas para votar em um novo "salvador da pátria", para nos salvar do salvador da pátria anterior.

Eparrei!

Rogério de Moura





sexta-feira, 29 de agosto de 2014

Racismo e outros "micos" do ser humano

Racismo no futebol, torcedores racistas, Santos X Grêmio, Goleiro Aranha
"Racista, eu? Claro que não!" É uma frase que a maioria das pessoas diz. Ou, no mínimo, tem ensaiada em seu subconsciente. Mas esse subconsciente sempre os trai. E há momentos em que essas pessoas tiram do armário o seu racismo para espanar a poeira.

Jogo entre Santos o Grêmio, quinta-feira, 28 de agosto de 2014, na casa do time gremista; o goleiro do Santos, Aranha, é negro e um grupo de gremistas começou a xingá-lo de negro isso, negro aquilo e macaco. O goleiro esbravejava pro juiz e nada. Não constou nem na súmula. Mas, como foi um caso com imagens, repercutiu nas redes e na televisão. Teve uma imagem de um loirinha na arquibancada gritando "macaco!"

Resultado: ela se fodeu! Perdeu o emprego e ainda está sendo avacalhada nas redes. Durante um bom tempo, vai ser reconhecida nas ruas como a loirinha que gritava "macaco" na arquibancada. Fico imaginando o quanto que esse mico nacional vai marcá-la. A mocinha que gritou "macaco", está pagando um "mico".

Que isso me entristece, entrestece. Mas não me choca, pois aconteceu por aqui ou em qualquer lugar do mundo. O que me choca mesmo é ver que, entre os gremistas, havia um negro, também chamando o goleiro negro de "macaco". Isso é igualmente grave! Isso é completamente repugnante! Isso é totalmente imperdoável! Coisa que não dá pra entender, tampouco aceitar.

Mas aposto que, tanto para a loirinha quanto para o negão racista, vão minimizar a atitude, reduzindo tudo a uma simples coisa de torcidor de futebol apaixonado pelo seu time.

Os 7 a 1 da Alemanha, deveriam ser um marco para uma reforma no futebol Brasileiro. Não vão ser. O quiproquó no estádio do Grêmio poderia ser um marco para a luta contra o racismo no futebo. Também não será.

Eparrei!

Rogério de Moura


Transformaram uma rodovia esburacada num tapete. Então...

Os acidentes eram incontáveis e o número de mortes idem.

Protestos vinham de todos os setores da população local, pedindo reformas para conter o número de acidentes. Até que chegou o dia em que, finalmente, os governantes tomaram juízo e reformaram completamente o asfalto.

Tão perfeito ficou que daria para jogar bola de gude pela estrada. 

O resultado... 

Antes do resultado, um parênteses: os nossos motoristas não resistem à uma pista lisinha, cujos pneus deslizam como se lutuassem.

Agora sim, o resultado: triplicou o número de acidentes.

Há um grupo de líderes locais pedindo para que as autoridades façam alguns buracos na pista para conter o número de acidentes.

Eparrei!

Rogério de Moura


quarta-feira, 27 de agosto de 2014

Ode à casa demolida


O progresso é inevitável e, não sendo predatório, é necessário. Porém, uma casa ou um prédio demolido fizeram parte de um lugar, da vida de pessoas, de uma história.

As casas não deveriam desaparecer em surdina, desprezadas como se tivessem ofendido, traído alguém ou cometido algum crime.

Em um mundo ideal, casas ou prédios, antes de serem demolidos,  retornando ao pó, deveriam receber uma homenagem, um agradecimento ou uma festa de despedida, pelo que contribuíram para história do lugar. Ou, pelo menos, uma salva de palmas, enquanto o trator se aproxima.

Rogério de Moura

sábado, 23 de agosto de 2014

Encontro de inventores arrependidos

Na Esquina do Além, onde os espíritos se encontram, formou-se uma rodinha curiosa. Era um encontro de espíritos de inventores arrependidos.

Após suas invenções, eles desencarnaram e encarnaram outras vezes. Mas, apesar de outras experiências, não conseguiram esquecer de que algum dia criaram inventos para o bem da humanidade que, no final das contas, afinal, vai entender os seres humanos, tudo foi convertido para o Mal.

Estavam lá, em lamúria coletiva, o espírito que foi do Santos Dummont, que inventou o avião; uma alma atormentada por ter visto o seu invento ser utilizado em larga escala para bombardeios durante as guerras.

Estava lá o Nobel, que batizou o Prêmio da Paz que, posteriormente, agraciou pacifistas como o Arafat, alguém com milhares de mortes no currículo.

Estavam lá o Einstein e um pobre coitado que fundou a primeira torcida organizada de futebol.

Estava lá a alma de um chinês que inventou a pólvora.

Em surdina, extremamente envergonhado, surgiu o Oppenheimer, uma pobre alma atormentada de um americano intranquilo que fez a bomba atômica.

O espírito de Steve Jobs está, ainda, ponderando sobre o quanto que o computador ajudou a humanidade e, ao mesmo tempo, está distanciando as pessoas. Todas estão se trancando em casa, virtualizando a vida e resumindo todo o contato humano às redes sociais.

Um bicão nessa reunião foi o espírito do arquiteto Thomas Andrews, que construiu o Titanic.

Espíritos de todas as épocas e encarnações, inventores, cientistas, matemáticos, físicos e biólogos se juntaram nesse inusitado encontro.

Todos juraram não mais inventar nada em qualquer encarnação, na intenção de que nada caia em mãos humanas. Uma hora ou outra, qualquer coisa inventada para o Bem será utilizada para o Mal.

O espírito de Gutemberg, o inventor da imprensa também estava lá. Não porque o livro tenha trazido algum prejuízo à humanidade e sim pelo desprezo que as gerações atuais tem por essa invenção.

Estavam lá muitos inventores que conceberam pensando em benefício da humanidade. Deu no que deu.

Estavam lá as almas das pessoas que participaram da Revolução Francesa e inventaram o conceito de direita e esquerda. Eles afirmam que, no Brasil, por exemplo, esquerda e direita são a mesma porcaria. Políticos da direita roubam e os da esquerda também. Ambos os lados chamam o outro de corrupto. E, enquanto o povo e os intelectuais perdem tempo discutindo qual o lado rouba mais, eles continuam roubando e rindo de todo mundo.

Para o próximo encontro, criadores de religiões ou líderes religiosos prometem participar.

Eparrei!


Rogério de Moura


segunda-feira, 18 de agosto de 2014

Domingo

O sol cozinhando o dia;
A tola torneira babando,
nas louças amontoadas na pia;
Leite derramando;
A mistura dentro da bacia
Pacientemente esperando
Por uma panela vazia
E o Domingo passando....

Quente,
Indiferente,
Lento,
Sem vento.


Seleção Brasileira: tudo e pouco

Nunca a Seleção Brasileira teve tanto dinheiro e tão pouco futebol.


sábado, 16 de agosto de 2014

A mosca cantora

Do nada surgiu a mosca voando pelo quarto.
Por preguiça, deixou-a lá, buzinando seu tradicional zumbido, esperando que, em algum momento, ela partisse.
Vários minutos se passaram, nada de partir. 
Dez minutos depois, não suportou e acionou o inseticida.
Os primeiros jatos erraram o alvo. O terceiro foi certeiro.
A mosca, que antes voava com um trajeto reto, passou a oscilar. Mas permaneceu voando e cantando.
Seguiu-se o quarto jato de inseticida. A mosca começou a cantar "Pensa em Mim".
Foi obrigado a recorrer ao quinto jato.
A mosca, mais tonta ainda, começou a entoar um sertanejo universitário.
Seguiu-se o sexto jato. A mosca, completamente dopada, começou a cantar uma música de axé.
Depois do sétimo jato, a mosca desembestou um funk carioca.
Guardou o inseticida, saiu de casa e foi dar uma volta no quarteirão.
Quem sabe, na volta, a mosca tenha encerrado o seu show gratuito.

Rogério de Moura



sábado, 9 de agosto de 2014

O cantor de um sucesso apenas

Que fim levou o cantor Eriberto César?

O nome dele é Eriberto César. Talvez você tenha ouvido falar dele. Ou seus pais. Ou seus avós. Quem sabe, digitando "que fim levou Eriberto César?” nos sites de busca, talvez o encontre.

Dificilmente terá sucesso na pesquisa digitando Eurípedes Procópio da Silva, seu nome de batismo. Aconselharam-no, quando sua carreira começava, a trocar de nome.

Surgiu então, Eriberto César que, por muito tempo lutou para alcançar o estrelato. Apresentações em bares, sociedades amigos de bairro, bailes, casamentos. Nesse percurso, compôs diversas músicas. Até que chance lhe surgiu em um programa de calouros e a sorte sorriu para o quase desistente cantor e compositor. 

O nome do sucesso era um tanto longo: "Enquanto Eu Girava a Maçaneta, o Outro Pulava a Janela". Da noite para o dia, as rádios passaram a tocar o que se tornaria um estrondoso sucesso naquele ano.

Convites para shows lotados, presença em revistas de entretenimento, viagens pelo país, apresentações em programas de televisão, autógrafos, fãs, tietes, casamento, divórcio, outro casamento, outro divórcio.

O tempo tem um vício: passar rápido, sem se importar com ninguém. Composições se acumularam. Nenhuma obteve sucesso. Programas de rádio e televisão começaram a rarear. Outro casamento, outro divórcio. 

Os anos passaram, cobrando sempre seu preço inegociável. E Eriberto tornou-se um cantor de um apenas um sucesso. Apenas aquela música. Nos lugares e eventos em que era reconhecido, sempre lhe pediam uma palhinha. Pedido que ele sempre recusava.

Havia momentos em que pensava nos momentos de alegria que "Enquanto Eu Girava a Maçaneta, o Outro Pulava a Janela".  Mas uma voz lá no fundo de sua alma vivia gritando que essa música tornou-se uma cruz em sua vida. Passou a detestá-la.

Sempre que pediam que cantasse, ele recusava. Quando, em restaurantes ou bares, ouvia, ao fundo, a sua música, logo pedia para desligar o aparelho de som ou, pelo menos, abaixar o volume.

No auge de uma crise depressiva, pensou em suicídio. Mas não levou a ideia adiante. Não queria que a música, caso se matasse, tocasse nos noticiários ou em algum programa de flashback.

Rogério de Moura


Palitando os dentes

Seu prato-feito foi uma coxinha e quatro copos de pinga.
Depois do almoço, ficou alguns eternos poucos segundos
Palitando... palitando... palitando...
Tirando a cachaça que ficou no vão entre os dentes.

Rogério de Moura


O legado do "legado"

Antes do Pan do Rio, falaram em legado.
E o legado foi esse: o estádio João Avelange, sucateado; o Maria Lenk para natação, sucateado, e por aí vai.
Antes da Copa, também falaram em legado. Durante a Copa, começaram a dizer: esqueça o legado.
Daqui há pouco, vão começar a falar do legado das Olimpíadas.
O maior legado de tudo isso é que a palavra legado significa que aí vem mutreta das bravas.

Eparrei!


terça-feira, 15 de julho de 2014

Os gênios do azar

Quando anunciaram a Copa, questionei sobre a infra-estrutura que o Brasil teria. Não daria conta de atender os estrangeiros e seria um caos. Disseram que iriam fazer toda a infraestrutura e que isso seria o grande legado da Copa.

As obras não começaram e a roubalheira aumentava. Questionei e começaram a me acusar de ser contra a Copa e contra o país.

Aí, surgiram pessoas que eram realmente contra a Copa, cujo grito era mais audível que o meu. 

A Copa aconteceu. O caso não foi tão grande e os que me acusaram de ser contra agora olham para mim, zombando e dizendo: "Tá vendo? Você não queria, mas foi um sucesso!"

Dão a impressão de que tinham certeza de que, sem infraestrutura, a Copa seria uma maravilha e que nada aconteceria de ruim.

Aconteceu, como pontes caindo e operários morrendo. Mas isso é irrelevante.

A Copa aconteceu e os que prometeram infraestrutura, o tal "legado" e não fizeram, me olham com escárnio de vencedores.

Acham-se uns gênios. Contam sempre com a gerência da sorte e de um batalhão de anjos da guarda.

Na realidade, são gênios do azar.


quarta-feira, 9 de julho de 2014

Reflexão pós Brasil X Alemanha

Alemanha 7, Brasil 1 e a nossa Seleção fora da grande decisão: agora eu posso finalmente criticar o mal futebol brasileiro sem ser acusado de ser "contra o país" e de ser simpatizante da Direita e das "zelites".









A Copa e o dilema moral

Ricardo Teixeira, Marin, Marco Polo Del Nero, Felipão, jogadores modelo-manequim-milionários que pouco jogaram no Brasil, Governo, Ministério dos Esportes...

Torcer para a Seleção Brasileira implica um complexo dilema moral.





terça-feira, 8 de julho de 2014

Copa o ano inteiro!

Copa do Mundo é uma maravilha!

Todo mundo para por causa da Copa. Inclusive o mosquito da dengue, o tráfico de entorpecentes. Os motoristas bêbados pararam de matar.

Até os corruptos deram um tempo para acompanhar os jogos. Os mensaleiros estão sendo liberados, mas tudo bem. As reservas de água estão no limite. Mas parece que tem água sobrando.

Está tudo funcionando direitinho: aeroportos, transporte. Onde estão os congestionamentos?

Torcedores organizados, geralmente promovendo quebra-quebra e mortes tornaram-se verdadeiros querubins, mesclando-se à multidão.

Não há notícias de crimes e chacinas.

Alguma obra pública sem fiscalização, feita às pressas, desaba, matando pessoas. Mas quem se importa? Que caiam outras.

Isso, sem dizer nas famílias que viajam nos feriadões que os jogos proporcionam. De onde vem a grana?

Até os mendigos e viciados em crack, que antes vomitavam caídos nas esquinas do centro da cidade ou andavam praguejando pelas ruas tomaram banho, escovaram os dentes e visitaram o cabeleireiro.

Esse panorama remete a uma casa, costumeiramente suja, bagunçada, desorganizada. A privada sempre entupida e embolorada, a pia da cozinha sempre repleta de louças para lavar com moscas pairando, a sala com sapatos espalhados, paredes mofadas, embalagens de pizza e meias espalhadas pela sala, teias de aranha pelo teto e ninhos de rato pelos rodapés. Vai receber visita? Chama-se uma faxineira de plantão e em questão de um dia a casa está limpa e cheirosa. As visitas elogiam a higiene dos anfitriões. 

A visita foi embora e tudo volta a ser como sempre foi.

Poderia ter Copa o ano inteiro.

Eparrei!



Episódio dos "Simpsons" sobre a Copa-2014 no Brasil

sexta-feira, 20 de junho de 2014

2014: o ano do "trabalho"

Carnaval, Copa, feriados prolongados, eleições...

Para quem não gosta de trabalhar, 2014, deve estar sendo um ano maravilhoso.

Eparrei!


quinta-feira, 29 de maio de 2014

Movimento perpétuo de um despertador de celular

Tocou o despertador, incomodando-o e interrompendo um sonho muito agradável do qual já havia se esquecido. Lembrou-se do velho e barulhento despertador que tinha quando tinha vinte anos. Agora é um moderno celular. Mesmo assim, o barulho, moderno, era incômodo. Levantou-se e foi até a sala, onde deixou o aparelho carregando a bateria. As tomadas do quarto estavam todas ocupadas.

Chegando a sala, encontrou o velho despertador, emitindo o toque moderno do celular. Achou estranho. Apertou o botãozinho para parar de tocar e não parava. Foi quando concluiu que estava sonhando. 

Então acordou. O alarme ainda soando da sala. Estava sonhando com seu velho e saudoso despertador. Caminhou até a sala, pegou o celular e pressionou o botão para que parasse de tocar. Não parou. Tentou novamente. Nada. Tentou várias vezes sem resultado. Olhou para a janela e viu que estava chovendo. Mas as gotas da água não faziam barulho. Foi até a janela e viu que chovia leite. Concluiu que estava ainda sonhando. Um sonho dentro de outro sonho. 

Acordou. Finalmente, vida real. Caminhou até a sala, pegou o celular, pressionou o botão para que o alarme calasse. Não calou. Um bezerro entrou na sala. Outros foram entrando. Não acreditou que ainda estava dormindo. Fez esforço para acordar.

Acordou. Estaria ainda sonhando? O alarme do despertador tocando. Caminhou até a sala. Antes, surgiu um riacho, assim que abriu a porta do quarto. O celular em cima da mesa de centro da sala, do outro lado da margem. É claro, ainda estava dormindo. 

Acordou. O alarme do despertador do celular tocando. A seguir, sirenes. Um vulcão explodiu, espalhando lava pelo quintal. Lembrou-se que no Brasil não há vulcões. E, caso houvesse e explodisse, tudo estaria em chamas. 

Acordou. Estava nevando do lado de fora do quarto. Era verão. Estava no Brasil. Que sonho é esse que não terminava? Sonho, dentro de sonho, dentro de sonho, dentro de sonho.

Acordou. O despertador tocando. Mal saiu do quarto e flagrou, na sala, duas pombas brancas brigando.

Acordou. Chegou à sala e, antes de desativar o alarme do celular, encontrou a ex-namorada com quem havia brigado aos prantos, pedindo-lhe desculpas. Ela não tinha a chave da casa, pois na briga jogou-a dentro da privada. 

Acordou e...

Rogério de Moura


sábado, 3 de maio de 2014

Dinheiro dá em árvore, sim senhor!

Dizem que dinheiro não dá em árvore e isso é uma falácia. Tenho um pé de dinheiro no quintal de casa, fazendo sombra a um pé de guiné e outro de arruda.

Quem tem a bênção de possuir um não diz a ninguém. Mas não é por medo de ser tido como uma pessoa rica.

Para se plantar um pé de dinheiro é preciso muito esforço e dedicação. Podar as folhas nos primeiros anos; regar sempre, pois é uma planta que bebe mais água que o ser humano nas piores ressacas.

Para se plantar, basta abrir um buraco, colocar uma nota, cobrir novamente com a terra e regar sempre. Não convém adubar muito pois afetaria o odor das cédulas.

Quando começa a brotar, é nota que não acaba mais. Tem dias em que o quintal fica coberto de dinheiro.

O problema do pé de dinheiro, e aí vem o motivo da vergonha daquele que os plantam, é que só começa a brotar depois de, no mínimo, trinta anos. E sempre será a mesma nota que se plantou.

Ou seja, não sei mais o que fazer com as milhares de notas de 500 mil Cruzeiros que plantei, aquela tem o rosto do Mário de Andrade. Estão cobrindo o quintal, a calçada; entupindo os bueiros. Tampouco não faço ideia sobre que de destino dar ao meu pé de 1.000 Cruzados. Quando secas, dão uma boa fogueira, mas, haja fogo.

Tentei ver se o chá daquele dinheiro poderia curar alguma coisa. Mas o boldo, pra ressaca; a babosa, para a saúde; e o manjericão para o macarrão são imbatíveis.

Ou seja: se ninguém diz que tem um pé de dinheiro, é por pura vergonha.

Estou pensando em plantar um pé de 100 Reais, mas sabe-se lá como será o panorama econômico para os próximos anos.


Eparrei!

Rogério de Moura




terça-feira, 29 de abril de 2014

Um intenso tráfego aéreo de mosquitos

A pessoa que olhasse para o quintal, ira se deparar com o seguinte cenário: uma quantidade inimaginável de voos e decolagens de aedes aegypti nos aeroportos do quintal.

Os pernilongos e o tal mosquito da dengue estão em tal quantidade que os aeroportos, ou melhor, os mosquitoportos estão lotados, com direito a overbooking.

O panorama é de caos total e muitas reclamações por parte de lesmas, borboletas, taturanas e grilos. As formigas, que até o momento, sempre costumavam a caminhar em fila indiana agora carregam cartazes de protesto: "mosquito da dengue, fora daqui!". Até as baratas saíram de suas tocas para apoiar a manifestação.

A ANACI - Agência Nacional de Aviação Civil dos Insetos, como sempre acontece fazem os órgãos públicos, publicou uma nota protocolar dizendo que esse ano está investindo uma certa cifra na infraestrutura.

Aranhas, moscas, abelhas, vespas e antes indiferentes e até certo ponto simpatizantes aos pernilongos estão sentindo-se incomodadas. Até os barulhentos besouros juntaram-se ao coro dos insatisfeitos. Uma mosca que não quis se identificar reclamou ter sido discriminada por um bando de pernilongos de cabeça raspada.

O ambientalista Jarbas Passarinho disse, em entrevista coletiva, que o grande problema se deve à falta de pássaros. Um passarinho come até 150 pernilongos por dia. Com a falta deles, os pernilongos congestionam o tráfego aéreo de nossas casas, casebres e quintais.

Um grupo de lesmas foi conversar com os representantes da comunidade dos pombos para pedir que eles comam os pernilongos. Com preferência aos mosquitos da dengue.

Os líderes, no entanto, dão pouca importância ao problema, visto que preferem migalhas de pão, sobras de comida e até pedra, a ter que devorar esses magricelos insetos.


Eparrei!

Rogério de Moura



domingo, 27 de abril de 2014

Breve reflexão sobre idiotas

A propósito da manchete do Jornal Folha de São Paulo "65% consideram que mulher com roupa curta merece assédio":

O fato de haver idiotas no mundo não assusta. O que me apavora é saber que os idiotas são maioria.

sexta-feira, 25 de abril de 2014

O Pernilongo Violinista

Desde que veio ao mundo, para orgulho de seus pais e centenas de irmãos, mostrou aptidões musicais. Seu sonho era tocar para uma grande plateia de pernilongos admirados com seu virtuosismo, cultivado com anos de estudos e dedicação. 

O violino de um pernilongo, é obviamente, minúsculo aos olhos humanos. Portanto, difícil de se enxergar. O som é um tanto fraco. Haveria a necessidade de um amplificador. Porém, é possível enxergá-lo com um microscópio. Trata-se de um artefato feito com uma espécie de seiva, colhida nos caules de árvores e construídos por mosquitos luthieres.

Mas, era teimoso o jovem violinista. Aliás, turrão como todo pernilongo adolescente. Por mais admirado e respeitado no reino dos pernilongos, não se dava por satisfeito. Queria mais. Pretendia plateias maiores, um público mais exigente. E, por mais que seus pais insistissem contra, o jovem músico decidiu mostrar seus dotes musicais aos seres humanos.

Não se sabe ao certo quem foi o assassino. No mundo dos pernilongos só se sabe que um humano que não sabia apreciar uma boa música, ou querendo dormir, com uma palmada certeira, abreviou a carreira de um promissor pernilongo violinista. 

Eparrei!

Rogério de Moura

Ilustração: Felipe Parucci 

segunda-feira, 14 de abril de 2014

Contra uploads, use o desupdatizador

Ferver o leite é uma aventura metafísica. Como todos sabem, leite não tem vida, visto que se trata de um composto líquido de cálcio e outros nutrientes.

Há, no entanto, um momento em que o leite ganha vida: quando está fervendo. Não há outra explicação que justifique o fato desse líquido esperar pacientemente por um momento de distração da pessoa que está monitorando sua fervura para esparramar-se pelo fogão, obrigando-nos a perder um precioso tempo para limpá-lo.

Ficamos incontáveis minutos diante do fogão, observando-o na leiteira e esperando que finalmente ferva. E nada do leite ferver. Que seja um litro ou uma xícara. Ele fica esperando que o celular toque, que espirremos, que nos agachemos, que algo noticiado na televisão nos distraia etc. Basta um mínimo descuido para que o leite decida: "É agora! O trouxa vacilou!" e espalhe sua grudenta espuma de nata pelo fogão, apagando as chamas, fazendo chiadeira.

Outro ser metafísico é esse tal de update. Esse, porém, não possui um corpo sólido, líquido ou gasoso. Trata-se de um impulso elétrico, gerado dentro informações contidas dentro de um sistema operacional.

Há momentos em que nossos equipamentos decidem fazer o tal do upgrade e não há nada no universo que o impeça.

Afinal, qual a necessidade de um upload diário? Há uploads que acontecem de hora em hora.

Dia desses, durante uma importante reunião de negócios, um sujeito foi impedido de trabalhar  porque o Windows parou de funcionar  para fazer um update. Cada um trabalhando no seu computador e o coitado lá, esperando. Nada da máquina parar de "updatear".

Tentou reiniciar a máquina, o que não lhe foi permitido pelo sistema operacional. Não teve jeito. Restou-lhe suportar meia hora de constrangimento observando os colegas trabalharem e interagirem.

Certa vez, um locutor esportivo começou a xingar o Bill Gates ao vivo, instantes depois de seu notebook ter decidido parar de trabalhar para fazer um update em plena transmissão de uma corrida de Fórmula 1.

Os celulares também estão assim. No entanto, além de se tornarem mais lentos, também requerem um considerável gasto da energia da bateria.

Assim como os programas que fazem uma varredura corrigindo problemas no Ruindows, deveriam criar um desupdatizador.

Um programa que faz uma varredura em todos os programas e sistemas operacionais, eliminando a necessidade de uploads que, escancaradamente ou na surdina, infernizam a vida dos donos de computadores e celulares.

Mas, poderia haver um problema: esses programas anti-upload pedirem upload.

Eparrei!

Proibido upload