Folha de papel dobrada e nas mãos do pequenino nasceu um avião.
A janela se fez aeroporto e o miúdo aeroplano, tatuado de rabiscos de giz de cera
cada vez mais alto voava, escalando cada degrau do vento.
Contornou edifícios, desviou-se de pombas e antenas.
Viu prédios se espremendo nos quarteirões,
Viu carros se espremendo nas ruas,
Viu pessoas se espremendo nos prédios, nos carros e nas ruas,
Viu cada janela guardar sua pequena história:
Um casal de velhinhos assistindo televisão,
Uma bebê chorando no colo da mãe,
Um jovem casal discutindo coisa qualquer.
Da janela de sua casa, o menino era passageiro
Com o bilhete de passagem que ia imaginando.
Nas asas do pequeno avião conheceu culturas, idiomas, comidas
Faunas e floras que nunca havia imaginado antes.
Quanto tempo durou a viagem? Semanas, dias, meses... Ou apenas segundos?
Ao fim da jornada, o pequeno avião pousou.
Mal teve tempo de taxiar: o pneu de um automóvel passou por cima.
E o avião voltou a ser uma folha de papel.

(Rogério de Moura)

(Rogério de Moura)



Ilustração: Rogério de Moura

Trovão gritou "Chuva tá chegando!"
Corri pra janela, 
pra conversar com a chuva.
Trovão gritou outra vez. 
Foi quando o grito virou gemido,
correndo cada vez mais distante.
Chover, só noutro pedaço da cidade.
Não teve conversa com a chuva.
Fica pra outro dia nublado.
Fica para outro "mal tempo".

(Rogério de Moura)


Fogão:
Fogão sujo comemora três meses.
Na parte de cima uma superfície lunar:
Solo, montanhas, crateras e vulcões...
A lua teve vulcões?

Mendigo:
"Que estranho estou me sentindo...
Será o vinho, a cachaça roubada na encruzilhada,
aquele resto de marmitex que encontrei na sarjeta
ou foi o banho que não tomei?"

Formigas no formigueiro:
O aviso dizia, escrito em letras garrafais
só entendido por quem entende o formiguês:
"Estamos completando 90 dias
sem enxurradas no quintal!"

Cérebro:
Lavou-se a cabeça.

Foram-se as ideias, as inspirações
as lembranças, os sonhos, os medos, as esperanças...
"Água, traga-as de volta!"

(Rogério de Moura)



Depois que eles passaram,
eu também passei.
Quando novamente passarem,
terei também passado.
Voando acima do caminho 
havia um passarinho.
Enquanto estiver cantando,
seguirei assobiando.
(RdM)




Música que não sai da cabeça 
Versos que não saem da cabeça 
Noite que não sai da cabeça 
Grito que não sai da cabeça
Sono que não sai da cabeça
Nuvem que não sai da cabeça 
Dor que não sai da cabeça
Mendigo no chão 
dormindo no meio da multidão 
não sai da cabeça
Conversa com Deus
que não sai da cabeça
Os olhos segurando tudo
como uma porta enferrujada.
(RdM)





Casa sem telhado, nem portas, nem janelas.
Nuvem chegando.
Seu colchão o esperava, absorvendo a fuligem dos automóveis da avenida, exalando o mau cheiro de urina, seus rasgos cheio de insetos.
Nuvem chegando.
Ele aproximou-se do colchão como se escalasse uma montanha, ignorando as buzinas e as sirenes.
Nuvem chegando.
Caiu no colchão, em meio às garrafinhas de cachaça feitas de plástico, às sobras de marmitex amassada.
Nuvem chegou.
Chuva desabou.
E ele dormindo, sonhando com dias melhores.
Sonho em um sono que resistiu a enxurrada que purificava seus pés.
(Rogério de Moura)



Acostumou-se a dormir sobre o pórtico da igreja.
Mas, daquela vez, extrapolou.
Noivo no altar, noiva no carro, aguardavam o momento de celebrarem seus votos de união eterna.
E o subiu na escadaria, arrastando colchonete e cobertor.
Deitou-se ali mesmo, no meio da subida. Enrolou-se e dormiu.
Os padrinhos precisaram intervir, arrastando para longe o sem-teto, cujos berros ecoavam por toda a igreja.

*baseado em fatos reais
(Rogério de Moura)


Cachorro à espreita no portão.
Aproximou-se um sujeito, assobiando uma canção qualquer, feliz com o momento, feliz com a vida.
Latido. Susto.
E o pacífico sujeito afastou-se, xingando o dono do cão e toda a raça canina, com a certeza de um dia estragado.
Mais tarde, o cão reuniu-se com outros amigos de espécie, contando, orgulhoso, sobre a façanha daquele dia:
- Precisava ver a cara dele! - disse, orgulhoso, num idioma que só os cães travessos entendiam.
(Rogério de Moura)


Vivi...
E aprendi.




Um sujeito aproximou-se e, aflito, perguntou-me se eu vi a esperança.
Bebendo da agonia em seu olhar, disse o que sabia:
havia visto sim, não fazia muito tempo:
Estava, um dia desses, numa praça,
cochilando em um dos bancos,
depois, jogou migalhas de pão aos pombos,
pregou, com a bíblia nas mãos,
tocou com repentistas,
jogou dominó com idosos,
correu com as crianças.
Noutro dia a encontrei numa fila de banco;
Na mesma noite, estava no corredor de hospital;
Depois, na fila do sopão.
Certo dia a encontrei caminhando à margem de uma estrada
carregando uma cruz entre romeiros.
Noutra semana dia, estava em um ponto de ônibus.
Uma vez, passou por mim, fingindo não me conhecer.
Da última vez em que a vi, estava numa esquina qualquer
esfarrapada, mal cheirosa, olhar atormentado

gritando frases desconexas a quem passasse.

(Rogério de Moura)


"Não fique em casa sem ela!"


O mundo à velocidade da luz.
Enquanto isso, eu, a galope,
montado num quadrúpede 
chamado Passos.
Conquistando cada migalha
das pedras que estão na estrada.

(RdM)


Chuva, goteira,
O riso, a lágrima,
A terra, a poeira
A estima, alástima,

Chuva, goteira
A verdade, a mentira,
O gelo, a fogueira,
A calma, a ira,

Chuva, goteira,
A compaixão, a indiferença,
O nada e a parte inteira.
A fé e a descrença.

Chuva, goteira,
O asfalto, a terra,
Quem queira, quem não queira,
Quem silencia, quem berra.

Chuva, goteira,
O sonho e o pesadelo,
O médico e a parteira,
O consentir e o apelo. 

Chuva, goteira,
A luz e a escuridão.
A segunda e a sexta-feira,
O balde e o chão.

Chuva, goteira,
O ódio e o perdão,
O silêncio e a feira,
O juízo e a razão,


Chuva, goteira,
A seca e a enxurrada
A gota, a lameira,

O tudo e o nada.

(RdM)



Janeiro, Fevereiro, Março.
A vida é assim: prazer e consequência.
Prazer: barulho da chuva.

Consequência: barulho da goteira.

(RdM)

Pra onde a gente vai quando dorme?
Voando nas asas de um tempo inexistente
Trocando um dedo de prosa com o Mano Pestana.
Navegando no éter em um barco de ar
Ou voltando para dentro de quem sonhou a gente?
Que terra é essa que a gente se lembra sem lembrar.

(Rogério de Moura)

Ilustração: Alexander Jansson


Ano de 3813.



Uma civilização havia acabado. Surgiu outra, que também progrediu.



Vasculhando as ruínas da civilização anterior, um arqueólogo encontrou uma caverna onde se escondiam vários itens da civilização antiga. Estátuas, pinturas, móveis, equipamentos entre outros apetrechos. Uma das maiores descobertas daquele século.



Parte das ruínas pareciam algo como um estádio de futebol.



Entre essas coisas, havia um corinthiano bêbado, festejando a Libertadores e o Mundial de 2012, gritando: "Vai curintchia!"



Os arqueólogos levaram o estranho ser de outra era aos cientistas, que o levaram às autoridades. A imprensa soube do fato. Todos queriam saber o que era o tal grito dessa antiga civilização: "Vai curintchia!"



Após a conquista do caneco do Mundial de 2012, nosso querido corintiano festejou por dias seguidos, combatendo terríveis ressacas com porres homéricos.



Nesse meio tempo, no dia 21 de dezembro daquele ano, chegou um asteróide que obrigou a terra a uma nova Era do Gelo. O torcedor nem percebeu, pois estava numa ressaca insuportável. E assim, foi congelado, permanecendo por séculos com a sua ressaca.



E todos se perguntavam que idioma era aquele: "Vai curintchia!"


Foi o que tentou explicar para as pessoas, que não compreendiam o seu idioma. Afinal, estavam em outra era. Outros costumes, outros idiomas.



E, tudo o que o torcedor queria era uma xícara com chá de boldo.

Eparrei!







Antigamente, quando a gente tirava foto com alguma autoridade, as pessoas admiravam, ficavam com certa inveja até. Hoje em dia não: “Você está com esse filho da puta! Esse canalha safado! Sabia que você não valia nada! Quanto tá levando nessa?”
(RdM)


Todos fomos ejaculados,
concebidos, extraídos.
E, assim, paridos.
Fomos e somos gozados.
Fingindo nascidos:
Santos penalizados.
(RdM)


A pose do homem

Disse aquilo mesmo em tom de piada, com certeza. Mas uma breve historinha:

Estava eu um dia desses com um amigo no metrô (sempre) lotado. Falávamos sobre assuntos de sempre: futebol e mulheres.

Ele tem sessenta anos, mas está enxuto, físico de quarentão. Dono de um bom humor, no rosto um amplo sorriso, de leste a oeste. É uma pessoa que gosta de demostrar estar de bem com a vida e havia acordado de bom humor, na expectativa de mais um produtivo dia de trabalho.

Aí, de repente, uma mocinha que estava sentado num dos bancos do trem levantou-se para oferecer lugar para ele sentar.

Acabou o mundo. Seu rosto mudou de expressão. Aquele homem bem humorado, orgulhoso de si, imponente, dono ee seu destino, caiu numa profunda depressão

Uma transformação aterradora. Tornou-se, em segundos, uma pessoa melancólica e amargurada.

Tentei reanimá-lo, em vão.

Comecei a viagem na companhia de uma pessoa e terminei com outra.

E, por quê?

Por que a mocinha, inconscientemente, ao oferecer-lhe um lugar para sentar, apunhalou a autoestima do meu amigo.

Esse preço, aos homens, é muito caro.
Pra que sair
em viagem espacial
se cabe o universo

no meu quintal?

(RdM)


"Os dois dias mais importantes da sua vida é quando você nasce e quando você descobre o porquê."

H. R. Wells


Dez minutos para a meia-noite de fim de ano:
bicaram à minha porta.
Eram vários pombos, sabiás, rolinhas, canários e bem-te-vis.
Pediram para ficarem em algum canto da casa
até que parassem os estouros dos fogos de artifício.
Servi abrigo, milho, água, insetos
e algumas piadas sobre galinhas e papagaios.
Ficaram até o sol conhecer o ano recém-nascido,
que ainda chorava, ensurdecendo a vizinhança,
graças as palmadas da parteira.
(RdM)



Seus pés estão nas ruas, caminhando pelas calçadas, atravessando a esquina.
Mas eles não estão aqui. 
Sentados estão, nos bancos de praças, nos assentos dos ônibus, trem, metrô.
Mas longe desses lugares estão.
Há quem ache moderno, revolucionário. 
Deslumbrando-se como nativos de ilha selvagem diante de um espelho que viram pela primeira vez.
Diante de uma pessoa estão. Mas não notam sua presença, mesmo durante uma conversa.
São os não-aqui, os não-agora, que estão no lugar-nenhum entre a ponta de seus dedos e a tela do aparelho.
Zumbis voluntários, escravos passivos.
Seus olhares, pensamentos… sua alma está num só lugar:
no aparelho celular.
(RdM)




Era uma simples parede,
para quem era humano.
Senão, teria percebido...
que passou uma aranha,
que cumprimentou a lagartixa,
que cumprimentou a formiga,
que olhou faminta para a mosca,
que cumprimentou o pernilongo
que observava a taturana
que no dia anterior comeτou
a virar casulo, perdendo a cabeça.
Subia um caramujo, carregando sua casa.
Foi quando pousou a barata
com quem ninguém quis prosa.
(RdM)




Praonde o sol vai 
Quando quer dormir?
De onde sai a lua 
Depois de acordar?
O que faz a coruja
Quando quer sorrir?
Praonde vai noite
Quando quiser descansar?

(Rogério de Moura)

Hora do almoço? Oba!
Humilde refeição:
Arroba com feijoba,
Um zóio estalado
Nada demorado.
Ki-suco de guarnição.
Com capricho e esmero
A fome é o melhor tempero.

(RdM)


Não são discos voadores o que vemos no céu. São pessoas de outra dimensão. Nos espiando através de um portal, que é a pequena janela do banheiro deles.
(RdM)




Dois músicos à beira da estrada:
- Esse carro que passou
  motor foi em bmol!
- E esse outro, em mi maior!
- Ouve esse que tá passando
  é um fá que tá cantando!
- E esse velos, que “voou”
  é um ré que ressoou!
- E essa moto que passa?

- Desafinada, de pirraça!

(Rogério de Moura)


Lista de compras encontrada no chão de um ponto de ônibus:

18 + 15 + 18,84
13 + 18,47
Arroz
Feijão
Açúcar
Café
Manteiga
Macarrão
Molho de tomate
óleo, vinagre, azeite
Alho, tomate, cebola,
Papel higiênico, pasta de dente
Sabonete
Amaciante cloro, sabão em pó

Desinfetante, bombril, sacola de lixo




Pare, olhe e pense com curiosidade
na estranha perversidade
que possui a alma danada
de quem cola moedas na calçada.
(RdM)




O vendedor: 
“Um refrigerador conectado que não só avisa quais alimentos estão estocados como também envia uma foto deles para o smartphone. Se você quisar saber se está na hora de repor alguma coisa, é só clicar. A geladeira também serve como central de controle dos outros eletrodomésticos de linha branca, como lavadora, refrigerador de ar e até com o fogão. Tem tela 21,5 polegadas de HD, onde voê pode ter informações sobre os alimentos e opções de entretenimento, porque também toca mp3!"

O cliente: 
“Dá pra secar a roupa atrás?”


(Rogério de Moura)


Na mitologia existem entidades, criaturas que amedrontam boa parte da humanidade.
Isso vem acontecendo desde que passou a existir um negócio muito complicado chamado Civilização.
Aqui está uma relação dessas terríveis e assustadoras criaturas místicas que amedrontam os seres humanos. Há aqueles que juram que essas entidades não existem. Outros, ignoram completamente. Alguns até correm para debaixo da cama assim que ouvem falar nessas criaturas:
A Tolerância
A Honestidade
O Perdão
A Educação
O Bom-Senso

(Rogério de Moura)



Esquerda!
Direita!
Esquerda!
Direita!
O Brasil não deveria
nem esquerda
nem direita.
O Brasil deveria
caminhar para frente.
(RdM)