Eu e ela...
em um cruzamento...
Cruzamos nossos olhares.
Depois...
cruzamos nossa respiração.
Depois...
cruzamos nossos contatos.
Depois,
cruzamos nossos desejos.
Depois...
cruzamos nossas bocas.
Depois,
cruzamos nossos endereços.
Depois,
cruzamos nossos destinos.
Depois,
cruzamos nossas almas.

(RdM)


Incomodado com uma mosca que sobrevoava ao redor da sua cabeça feito satélite, gritou:
- Aproveitar! Ainda bem que dentro de poucas horas você vai morrer, bicho desgraçado! São apenas vinte e oito dias de vida!
A mosca entendeu o que foi dito. Ele é que, como não entendia a linguagem das moscas, não ouviu o inseto dizer:
- Te cuida, que meus netos vêm aí!
(RdM)

A prefeitura mandou reformar a praça 
Que estava abandonada, triste
Com vergonha de si mesma.
Vieram os carros oficiais:
Um caminhão com cimento, areia e pedras;
Outro com equipamentos e utensílios,
Uma perua com diversos funcionários,
Outro carro trazendo velhinhos para jogar dominó, 
Um pipoqueiro, um realejo.
Outro carro cheio de crianças para brincarem na grama,
Outro carro com casais de namorados.
Um carro trouxe cães, gatos e pombos.
Outro carro com um vendedor ambulante, um pregador evangélico e...
Quem é esse último a sair?
Um mendigo!


(Rogério de Moura)


Helena Coelho, "Dia das Crianças"

Perdi outro guarda-chuva e, dessa vez, não ignorei e decidi procurá-lo.
"Vá à Cidade das Coisas Perdidas e esquecidas", disse um velho mestre e sábio.
Lá fui eu, decidido e determinado.

Cheguei de trem. Outra coisa que está desaparecendo. Percorri pela Avenida dos pregadores de roupas, passei pelo bairro das moedas, pela Vila das Ideias. Em uma praça, havia uma imensa lágrima de concreto. Era a Praça do Sorriso desaparecido. Logo adiante, o Monumento das Promessas não cumpridas.

Caminhei e caminhei. 

Encontrei, caminhando, assustados, Cães, gatos e cochilos despertados. 
Avistei um conjunto habitacional de chaves, brincos, bolsas, carteiras e anéis de casamento. Espalhados pelas ruas, feito folhas secas ao vento ou capim na fresta das calçadas estavam os dias, os anos e os séculos.

No céu, vários por do sol. É para cá que eles vêm quando a noite chega.
Havia um bairro habitado somente por promessas esquecidas de políticos. 
Pouco antes de chegar no Beco dos Guarda-Chuvas Esquecidos, passei pela Rua das Grandes Paixões Perdidas, fiz meia volta e fui embora.

Acredito que meu guarda-chuva está por lá, sem dono, num boteco, feliz da vida, com outros guarda-chuvas., cantando um samba composto num pedaço de papel que algum compositor perdeu.

(Rogério de Moura)


"Um, dois, três, quatro!"
É o que anuncia o relógio digital.
Melhor dizendo, com todas as letras: doze horas e trinta e quatro minutos.
Não sei porque, a cada uma das duas vezes ao dia em que esse horário acontece, eu comemoro.
Ou, pelo menos, tenho a atenção despertada da imperceptível absorção que todo nós temos.
E o dia marcha: "Um, dois, três, quatro! Um, dois, três, quatro! Um, dois, três, quatro!"

(Rogério de Moura, escrito às 12h34 de 24/08/2017)


A melancolia no olhar daquele pequeno cão faria uma estátua chorar.
No colo da dona, embrulhado em peça de lã.
Disseram tanto a ele (ou será ela?) sobre sua fragilidade que decidiu incorporá-la.
Certeza tenho de que há uma conspiração mundial de veterinários para transformar até o mais resistente  vira-latas num ser tão frágil e tão carente de cuidados que um recém-nascido.


(RdM)





Na plateia, jovens estudantes. No palco, intelectuais. A temática, a desigualdade social.
Um dos debatedores mal começou a falar e...
"Porque, no Brasil, só preto e..."
Pronto! Não deu outra! Lá veio a palavra "pobre"!
Tornaram-se inseparáveis, como "arroz" e "feijão", "pão" e "manteiga", "café" e "leite".
E intelectuais e demais catedráticos sempre utilizando essa triste dupla para dar credibilidade ao que estão dizendo.
Faço um apelo aos intelectuais e companhia: não utilizem as palavras "preto" e "pobre" na mesma frase quando estiverem expondo suas opiniões. Para quem demonstra ter inteligência e cultura, é dispôr de um recurso que demonstra pobreza de argumentação.
Fariam aos negros um benefíio maior do que o de siplesmente substituir a palara "negro" por "afrodesendente".

(Rogério de Moura)


E, na camiseta,
a frase:
"Negão não!
Sou afrão!"

(RdM)



Tudo começou com uma pequena ira, irresistível.
Depois, algumas doses de raiva.
Pronto! Lá estava, embebedando-se de ódio.
No outro dia, uma ressaca terrível.
Jurou nunca mais ter raiva.

Dia seguinte, o abstêmio da raiva não resistiu à primeira discussão.

(RdM)


Era uma relação de amor platônica. Nem Platão imagina algo tão intenso.
Infelizmente, privado de ter seu amor correspondido, ele começou a beber.
A cada vez em que em sua musa pensava, em pouco tempo, estava diante de um balcão, entornando litros de bebida alcoólica.
Qual o nome da amada? Isso pouco importa. O interessante é saber que ele, tão logo pensasse nela, logo estava tomando todas.
O físico não aguentou. Teve que parar de beber, por questões óbvias de saúde.
Mas, toda vez em que pensava na sua musa… Ficava bêbado. Nem precisava beber.
Os amigos estranhavam: “Voltou a beber?”
E o “bêbado” dizia, enrolando a língua: “Não tomei nenhum gole.”
Seus amigos só acreditavam ao constatar que ele, realmente, não estava cheirando a álcool.
E, assim, seguiu sua vida: bastava dizer o nome dela, ou pensar nela, que ficava bêbado, sem ingerir uma gota de álcool.
Médicos tentaram vários tratamentos. Todos em vão.
Psicológico? Psicossomático? O fato é que ele parou de beber. Mas continua pensando em sua amada. Sofrendo, no dia seguinte, ressacas terríveis.
(RdM)


Foi ao bar como se fosse à missa,
Molhou a garganta como se a batizasse,
Arrastou-se pelas ruas como se pagasse promessa,
Caiu diante do portão como se fosse um altar,
Chorou como se pagasse penitência,
Dormiu como se estivesse orando.

(RdM)



Amar é castigo,
É perder a razão,
Transformar o coração
No pior inimigo.
É viver perder o juízo
Amor é doce prejuízo.

(RdM)

Ilustração: Kuro


Antigamente nem tanto, maldosamente um tanto
Diziam que "televisão de baiano era janela de trem."
Enquanto muitos sonham em ter um caro televisor

moderno, tecnológico, de incontáveis polegadas.
Meu sonho é ter uma televisão de baiano.

(RdM)



Folha de papel dobrada e nas mãos do pequenino nasceu um avião.
A janela se fez aeroporto e o miúdo aeroplano, tatuado de rabiscos de giz de cera
cada vez mais alto voava, escalando cada degrau do vento.
Contornou edifícios, desviou-se de pombas e antenas.
Viu prédios se espremendo nos quarteirões,
Viu carros se espremendo nas ruas,
Viu pessoas se espremendo nos prédios, nos carros e nas ruas,
Viu cada janela guardar sua pequena história:
Um casal de velhinhos assistindo televisão,
Uma bebê chorando no colo da mãe,
Um jovem casal discutindo coisa qualquer.
Da janela de sua casa, o menino era passageiro
Com o bilhete de passagem que ia imaginando.
Nas asas do pequeno avião conheceu culturas, idiomas, comidas
Faunas e floras que nunca havia imaginado antes.
Quanto tempo durou a viagem? Semanas, dias, meses... Ou apenas segundos?
Ao fim da jornada, o pequeno avião pousou.
Mal teve tempo de taxiar: o pneu de um automóvel passou por cima.
E o avião voltou a ser uma folha de papel.

(Rogério de Moura)

(Rogério de Moura)



Ilustração: Rogério de Moura

Se no Egito Antigo houvesse celular e internet, uma das pragas que Moisés enviaria seria os boatos de WhatsApp.

No princípio, era por e-mail. Depois, empestearam o Facebook. Mas encontraram terreno fértil e mais potencial para se propagarem mesmo é no WhatsApp, afinal, nem todos têm computador, mas todo mundo tem o WA, ondem dividem espaço com o "spam afetivo" (mensagens de "Bom Dia", "Boa Tarde", "Boa Noite", "Bom Fim de Semana", "Bom Começo de Semana".

Alertas de segurança e de saúde estão entre os temas. No entanto, noventa e nove vírgula nove por cento não tem procedência, tampouco lógica. Seus inventores se sentem tão importantes quanto o pichador diante de uma parede cheia de seus escritos. Mas não falta quem os distribua para seus amigos, achando que vão salvar-lhes a vida.

Decidi também inventar alguns boatos para WhatsApp:

1)

Atenção!!! A indústria dos fabricantes do leite longa-vida não quer que você saiba: no processo de fabricação do leite longa-vida é adicionada uma proteína, a sorumbatae lacteos. Essa substância, ao ser colocada em qualquer produto alimentício à base de milho, tem propriedades cancerígenas. Não coloque leite longa-vida na preparação de alimentos como Maizena, Sucrilhos e outros derivados.
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2)

Atenção!!! Não compre ovos vendidos na promoção "cartela de 40 ovos por 10 reais"! São ovos importados da China e foram produzidos numa região assolada pela gripe aviária asiática. Estão contaminados e representam um sério risco à saúde. Como na China, a venda é proibida, esses ovos foram exportados para o Brasil a preços irrisórios. Não compre!!!
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3)

Atenção!!! Se receber no celular uma mensagem com a imagem de "Bom Dia" contendo um coração vermelho e uma rosa, não abra. Esse arquivo irá instalar no seu celular um poderoso virús que rastreará seus dados bancários e poderá transferir o seu saldo para uma conta do Banco Federal de Burkina Faso, em nome de Assu di Apodi. Ao receber essa mensagem, não responda e delete imediatamente.
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4)

Atenção!!! Cuidado ao comprar as pamonhas de Piracicaba vendidas nas ruas. Estão vendendo pamonhas contendo NHK, medicamento utilizado para a esterilização de mulheres, cuja venda é proibida. O objetivo é fazer o controle de natalidade sem o conhecimento da população. Ao comprar a pamonha, verifique se o tom da cor é alaranjado e se a consistência estiver muito dura. Se for, não compre. 
Compartilhe!!!

5)

Atenção!!! Gangue de falsas testemunhas de Jeová está assaltando moradores. Ao atender testemunhas de Jeová no portão de sua casa, peça para que eles demonstrem o quanto conhecem da Bíblia. Se demonstrarem pouco conhecimento, afaste-se sem demonstrar medo, entre em casa e ligue imediatamente para a polícia!!!
Compartilhe!!!


(Rogério de Moura)



Quando olhou para trás, o que viu?
A breve infância e a despercebida adolescência.
Quem ele fez sorrir e chorar
O quanto que sorriu e chorou.
O quanto bateu e o quanto apanhou.
Os árduos dias de trabalho, os raros dias de folga.
As viagens que fez, os lugares que conheceu,
Pelo mundo e dentro de si mesmo.
As minguadas conquistas e a horda de fracassos.
Os que se foram e os que ficaram.
Os amores, os perdidos e os platônicos
Que são os únicos que conseguiu avistar.
Quando olhou para frente, o que viu?
Apenas a estrada, poças d'água e pedras
Que, sedutoras, brincando de sereias,
Convidavam-no para que tropeçasse.

(RdM)



Era uma vez um "era uma vez" que ia começar a contar uma história.
Porém, antes da narrativa, esse "era uma vez" pensou: 
"Porque muitas histórias começam com 'era uma vez'"?
E foi embora, sem dizer nada mais, sem se despedir, sem olhar para trás.
Estaria tudo perdido, sem história nenhuma.
Então chegou um "tudo começou quando", que resolveu o impasse.

(RdM)


Saberão os pássaros que, na culinária brasileira, existe um prato chamado Frango à Passarinho?
Bem que tentei perguntar para eles. Tentei o beija-flor, o sabiá, a rolinha, o bem-te-vi, pombos... Mas sempre voam assustados antes do início da pergunta.
Não perguntei às galinhas por uma questão de educação. 

(RdM)


O amor é um abismo camuflado.

(Rogério de Moura)


Era dia de feira-livre.
De volta, com o suor espalhado pelo rosto, espalhando a compra pela mesa.
A gravidade fez um "big bang", formando um sistema solar.
Um pêssego fingia ser Mercúrio.
Uma maçã, Vênus; Marte era um tomate. Melão e melancia, Saturno e Júpiter. Limões: Urano, Netuno.
Em um dos cantos da mesa, uma ameixa pensava ser Plutão.
Uvas-lua, vagens-cometas, grãos-satélites.
Milhões de quilômetros acima, no céu do teto, a lâmpada achava que era sol,
iluminando tudo com sua inofensiva explosão nuclear.
Enquanto isso, eu descascava o planeta Terra para fazer uma laranjada.


(Rogério de Moura)
 

Que mulher era aquela
Sensual e tão bela,
Racional e tão aérea
Carnal e etérea?
Mesmo imóvel, bailava.
E no chão, pairava.
Estava ali, eu sentia.
Nem parece que existia.

(RdM 12/06/2017)


 
O universo é imensurável.
O planeta Terra, nesse "tantão" que é o universo, é um grão de areia dentro de outro grão de areia que não imaginamos o que seja de tão grande
Mesmo assim, é imenso, outro universo dentro de outro universo.
Nada explica o suicídio de uma mosca justamente dentro da xícara do meu café, que é, evidentemente, um grão de areia, dentro do grão de areia, de todos os grãos de areia possíveis.
(RdM)



Sabedoria? Onde?
Se antes, muito antes,
soubesse o que sei hoje,
teria feito mais perguntas.
(RdM)



Não é um pernilongo!
É um minúsculo violinista,
Desafinado e sádico,
Que sabe voar e gosta de espetar
E gosta de alfinetar as pessoas
Depois que se apaga a luz.

(RdM)


Choveu semana inteira
Teto danou a chorar
Corri com o balde para colher uma goteira.
Outra surgiu. Qual delas guardar?
Cada universo deve de assim nascer,
Como uma goteira no teto.

(Rogério de Moura)


Não foi um acidente,
Tampouco uma trombada,
Muito menos abalroamento:
Dois veículos queriam
Cumprimentar um ao outro,
Mas não tinham mãos.


(Rogério de Moura)


 
Para ela, era para ser um momento de amor, devaneio, delírios e muito coito (será que ainda utilizam essa palavra hoje em dia?).
Para ele também. Um momento de prazer quebrando uma estressante semana de muito trabalho e pouca compensação financeira.
Um motel barato com pernoite acessível. Quartos confortáveis, aparelho de som, banheira de hidromassagem e televisão.
Foi esse o problema.
Ao ligar o aparelho, esperando ver um filme pornográfico para apimentar o momento... Futebol!
Como? Na correria, o casal se esqueceu que a noite gloriosa coincidia com a decisão do campeonato.
Ela torcia para um dos finalistas. Ele, para o time adversário. A rivalidade era motivo de piadinhas entre os dois, que tiravam de letra aquela rivalidade. Afinal, o amor prevalecia.
Até aquela noite, que seria de romance, coito e idílio (será que ainda usam essa palavra hoje em dia?).
Os casais dos quartos vizinhos ouviram, não dois casais fazendo amor, mas dois torcedores torcendo cada qual para o seu time.

Motel e futebol: dois patrimônios nacionais.

                                                                                                     (Rogério de Moura)



No chão, em meio a bitucas de cigarro e restos de restos, um mendigo dormia, sonhando um amor e uma cama.
Logo acima, um velho senhor de bronze fazia cara de sério enquanto ostentava um olhar de quem fez algo importante.
Acima disso tudo, um pombo cagava na velha cabeça de bronze, enquanto vigiava as janelas dos edifícios e as pessoas ansiosas no ponto de ônibus.
Será que os espíritos dos homenageados se incomodam com os pombos que defecam na cabeça de suas estátuas?
(Rogério de Moura)



As pessoas podem até se recusar a admitir, mas os gatos dão, para aqueles que os veem (inclusos aqueles que os tocam ou, melhor ainda, os que os acariciam) uma espécie de embriaguez.
Eles são uma espécie de cachaça, cerveja ou outra coisa mais ilícita, onde o sujeito relaxa, interrompe a correria do dia-a-dia e se tranquiliza, refletindo que a vida não precisava ser assim.
Principalmente se eles estiverem dormindo, o que fazem em oitenta por cento de seus tempos.
Como sempre acontece nesses casos, vai chegar um dia em que serão proibidos.
Os felinos não são tão carentes como os cães: se o dono der um pontapé em seu cachorro, eterno submisso, no dia seguinte, não cobrará por tal atitude, ao contrário dos felinos.
Por isso, há quem prefira cachorros em detrimento aos gatos: os cães fazem as pessoas se sentirem mais importantes do que elas são na realidade.
(RdM)


 
Todo ser vivo é composto por moléculas,q ue são compostas por átomos.
Cada átomo contém prótons, elétrons e nêutrons.
Até aí, todo mundo sabe. O que pouca gente imagina é que cada próton, elétron ou nêutron é composto por universos.
Cada universo é composto por galáxias, que contém incontáveis sistemas solares, cada qual com diversos planetas.
Um deles é o planeta onde estamos.
Mesmo assim, somos muito menores que os átomos deles. E esses seres vivos gigantescos não conseguem nos enxergar com seus microscópios.
Estamos neles. Somos partes deles.
E eles são parte de nós.
(Rogério de Moura)



Numa noite de poucas nuvens vinha se aproximando um disco voador.
Luzes vibrantes, movimentos velozes...
Logo me imaginei fazendo contato e conhecendo mundos, sistemas políticos e religiões diferentes.
Mas era apenas um helicóptero brincando de ser disco voador.


(RdM)



Despensa vazia.
Mas, pensando bem,
nem despensa tinha.
Geladeira vazia.
Olhando com mais apuro:
Uma caixa enferrujada.
Caminhando pela rua.
Imaginando o que comer
Sem ter dinheiro pra comer.
Um saco de arroz, na sarjeta, rasgado.
Paciência, pá e vassoura:
Terá a janta essa noite.
A vida inventou de ser assim:
decorada com pequenos milagres.
(RdM, 03/05/2017)





Outra vez!
Será intencional
O breve susto
Que as sombras nos pregam?


(RdM)

 
O apaixonado escreveu um poema para sua musa, resultado de horas e horas pensando, matutando, sofrendo, sangrando por dentro. 
Enviou para a amada via Facebook e ficou aguardando o retorno. Em cada minuto, um século de ansiedade e expectativa, imaginando-a dizendo coisas doces como: "Adorei! Vamos nos encontrar?", "Amei! "," Que lindo!" e, na melhor das hipóteses, um "eu te amo".
Foi quando chegou a resposta: "👍".

(RdM)



Tocou a campainha.
Era o carteiro.
Suor na testa, mochila no ombro, carta nas mãos.
Era um convite com Aviso de Recebimento.
Escrito pelo vizinho:
Um caramujo que adotou o meu quintal.
Convidou-me para tomar cerveja,
Ver um clássico do futebol,
Rir e falar coisa à toa.
Em sua concha.
Vai ter churrasco.
Sem sal.


(RdM)





No princípio, tudo era nada,
Ao mesmo tempo em que
Tudo era um,
Ao mesmo tempo em que
Tudo era todos. 

(RdM)

Finalmente arrumou o quarto.
Não porque a mãe estava pedindo há meses (ou anos?).
Não por questões higiênicas, médicas, humanitárias.
Arrumou o quarto porque procurava moedas para colocar créditos no celular pré-pago.

RdM



Ao ver as lágrimas correndo pelo rosto da dona da casa, chegou bem pertinho de seu ouvido e sussurrou. Ela não ouviu.
Então, gritou. Em vão, afastada com um brusco gesto de mão.
Distanciou-se e, novamente, sentindo piedade, reaproximou-se. Dessa vez, tentou dizer que houve problemas mais graves, que este era mais um deles e que, com o tempo superaria.
Não foi ouvida.
Pensou em desistir. Não se conteve. Retornou.
Dessa vez, duas mãos a esmagaram. Seu corpo, ainda com espasmos, parou em um canto empoeirado da sala.
Que pena! Ninguém havia avisado àquela mosca dos riscos de se tentar consolar o dono da casa onde está voando. Principalmente se não souber falar a língua dos humanos.

Rogério de Moura


 
Em seu currículo, escaladas de alturas inimagináveis em edifícios vertiginosos. Muitas vezes caiu, feriu-se e levou meses para se recuperar. São incontáveis as vezes em que fugiu e escapou da polícia.
Graças a ele, entre outros pixadores, não há centímetro da cidade que não seja "tatuado" pelas ilegíveis assinaturas pessoais.
Graças a ele e seus colegas, as paredes das casas, fachadas de lojas e edifícios parecem estar com uma espécie de "sarampo urbano". Com orgulho, comenta suas façanhas, sempre arrematando com a frase: "O bagulho é louco, truta!"
Curiosamente, as paredes e os muros de sua casa são limpinhos. Houve um dia em que, ao flagrar um colega pixando o muro, deu-lhe uns socos e pontapés.

Rogério de Moura


Corra, que o lixeiro tá chegando!
Corra, que o caminhão dos coletores de lixo, 
Avança, dobrando a esquina.
Retire de casa, retire da alma
E coloque em sacos, sacolas,
Ou nas antigas latas de lixo,
As mágoas e as promessas não cumpridas,
As dores sem aprendizado,
Os gritos não ouvidos,
Os apelos inúteis,
As mensagens e cartas não lidas,
Cumprimentos falsos, 
Sorrisos falsos.
Eternas, erradas e inúteis discussões
Entre partidos de Esquerda e Direita.
Teses baseadas em preconceitos.
Quem não passa para outros o que aprendeu,
Quem corrompe e, à noite, dorme em paz,
Quem diz fazer o bem fazendo o mal,
Quem julga sem juízo,
Quem ama odiando,
Quem mente dizendo verdades,
Quem sorri falsamente,
Quem chora falsamente.
Coloque no lixo tudo que não tenha paixão
Deixe tudo na calçada
E faça votos que o lixeiro leve
A tudo sem triar, sem escolher,
Sem pedir gorjeta.
Corra, que o lixeiro tá chegando!
(RdM)


O cachorro, o carteiro e a carta.
O cachorro latindo para o carteiro colocando a carta na caixa de correspondências.
O cachorro, triste por seu dono deixá-lo na coleira.
O carteiro triste pelo seu salário e por suas contas.
A carta... uma conta.

(Rogério de Moura)

Caixa do Correio, foto Rogério de Moura

Quando se é jovem, o que acontece?
A missão de conhecer o mundo.
E depois do depois, quando se envelhece?
Qhando o tempo escapa da coleira
Lembramos de Deus e seu silêncio profundo.
A missão do envelhecer é conhecer a si mesmo.

(Rogério de Moura)


E o dia, em pânico, fugiu.
Tentaram caçá-lo em vão
Através da risonha escuridão.
Perguntaram. Ninguém viu.

Chamaram bombeiro, polícia.
Dia, correndo, ninguém alcança
Seja homem, mulher, idoso, criança.
Não houve quem desse notícia.

Quem desse pista, esperança.
Enquanto isso, uma janela se escondia
A tudo viu. E não delatou o dia
Porque tinha medo de vingança.

(RdM)



Dezenove, dezenove e pouco...
Dezenove, dezenove e muito...
Fez de conta que era meia-noite,
O sol mal havia dobrado a esquina.
Fez de conta que era lua cheia
Mas era apenas luz de um poste.
Imaginou que de casa perto estava.
Casa? Daquelas que se chamam lar? Dem tinha. 
Dele mesmo, só estômago roncando,
Par de pés: solas, unhas e verrugas feito brasas.
Saía das casas o cheiro da janta
Perfumando uma noite ainda de fraldas.
Longe de pousada, de repouso, de paz,
De trocar prosa com o compadre pestana.

(Rogério de Moura)

Ilustração: Rogério de Moura

E Deus nos criou à sua imagem e semelhança. E quanto ao resto. Não?

Se o ser humano simplesmente desaparecesse da face da terra...
Os únicos que sentiriam nossa falta seriam os animais domésticos.
Os dependentes, pereceriam, com certeza. Os demais, adotariam uma vida selvagem, caçando para sua sobrevivência.

O ar atingiria níveis de pureza inimagináveis.

Fauna e flora atingiriam sua plenitude em menos de cem anos.

Espécies em extinção voltariam a se multiplicar.

Ecossistemas seriam recuperados. Novos seriam criados.

Em centenas de anos, edificações, por mais resistentes, ruiriam.

Estradas seriam cobertas por vegetações.

Corrupção, violência, poluição, ganância...

Somos assim tão divinos?

(Rogério de Moura)

Se você quiser frutas e legumes realmente saudáveis, tem que plantá-los no seu quintal.

E, pelo jeito, se quiser comer carne bovina saudável, também vai ter que criá-lo no seu quintal.

Eparrei!

Ela foi cercada, agredida e morta. Durante a agressão, ninguém se aproximou para defendê-la. Enquanto ela agonizava, ninguém para socorrê-la. 
E agora, com o corpo estendido na calçada, ninguém para velá-la. Não houve quem se importasse com o que estava acontecendo, sob o sol do meio dia, na calçada de uma grande metrópole. 
Um carteiro que passava por lá não percebeu. Muito menos um senhor. Atrasado para o trabalho. Tampouco uma mãe que estava levando os filhos para a escola. Um dos filhos reparou no acontecia e apontou o dedo. A mãe, alheia, o puxou, arrastando-o na direção da escola. Afinal, estavam atrasados. 
Não contentes, os vorazes agressores começaram a esquartejar a vítima. Os carros que passavam não pararam. Um pipoqueiro que passava pelo lugar não deu a mínima importância. 
Chegou a polícia! Finalmente haveria alguma reação. Nada. Os dois policiais passaram bem ao lado, calmamente, conversando entre si. 
Eis que os assassinos começaram a comer a vítima, enquanto outros comparsas se afastavam, levando alguns pedaços consigo. 
Violência brutal e desmedida, em plena luz do dia. Mas é um mundo violento. Duvida-se que irá, no dia seguinte, figurar entre as manchetes dos jornais. 
Um fato despercebido por acontecer entre uma pobre vespa e um bando de formigas. 

(Rogério de Moura) 


- Meu esquete é assaz melhor que o seu!

- Divirjo! Divirjo veementemente!

- Filho de uma lambisgóia!

- O cavalheiro está ofendendo a minha progenitora! Queira, por obséquio, retirar a ofensa!

- De modo algum, pelo contrário. Reitero com veemência: sua progenitora está longe de ser uma dama!

- Eu repilo! Eu repilo! Insisto que retire imediatamente tais afirmações!

- Quem se recusa sou eu em tirá-las! Nego peremptoriamente!

Começam a brigar. Na arquibancada, inicia-se um tumulto, gereralizando em socos e pontapés. O vendedor de grapette saiu correndo, seguido pelo vendedor de bijús, em pânico. 

Instantes depois, ternos rasgados, sapatos e chapéus para tudo quanto é lado.
Um ferido lamentava-se com os olhos marejados:

- Meu bigode! Arrancaram o meu bigode!

(Rogério de Moura)


Quando aquilo começou? Desde que faleceu sua esposa. Ao mesmo tempo, companheira, testemunha, amiga, amante, conselheira. Seu único alicerce. 

O mundo deixou de ter sentido. Restou-lhe um banco de praça e migalhas de pão que jogava aos pombos. Alimentava as aves. Olhos tristes, embalados em lágrimas. Com o avançar dessa rotina, passou a reconhecer cada pombos. Bicos, penas, tonalidades, feridas. Casais. Podia dar-lhe nome, se tivesse ânimo para isso. Os pombos também o reconheciam. Bastava sentar-se no banco e pousavam ao seu redor aguardando pelas migalhas que ele não negava. 

O viúvo ficou seriamente doente. Deitado em seu leito, através da janela, podia ver as janelas dos outros prédios. Um pombo pousou no parapeito da janela. “Igualzinho ao pombo da praça”, pensou. Juntou-se outro pombo. Também semelhante ao pombo que alimentava na praça. Outros pombos juntaram-se. Observou-os com maior atenção. Reconheceu-os. Eram os mesmos pombos da praça. 

Durante uma semana, os pombos da praça iam visitá-lo. Às vezes, uma enfermeira entrava no quarto e iniciava um histérico e inútil trabalho para enxotá-los. Um dia, nenhum pombo pousou no parapeito daquela janela de hospital. No dia seguinte, o viúvo teve alta. 

No dia seguinte, lá estava ele, sorriso no rosto, alimentando os pombos, para revolta de alguns pedestres para quem as aves eram "ratos de asas". 

(Rogério de Moura)

Pintura de Denise Ludwig.

Quando crianças, sempre temos algumas dúvidas tolas. Crescemos, envelhecemos, e nossas dúvidas tornam-se cada vez mais tolas.

Quanto às dúvidas infantis, uma questão fez parte do meu imaginário por todos meus "melhores anos". Pensando bem, perdura até hoje: "como é que Jesus nascia no fim do ano, dois meses depois as pessoas faziam uma festa pagã e dois meses depois matavam o pobre rapaz?"

(RdM)