JPV

segunda-feira, 14 de abril de 2014

Contra uploads, use o desupdatizador

Ferver o leite é uma aventura metafísica. Como todos sabem, leite não tem vida, visto que se trata de um composto líquido de cálcio e outros nutrientes.

Há, no entanto, um momento em que o leite ganha vida: quando está fervendo. Não há outra explicação que justifique o fato desse líquido esperar pacientemente por um momento de distração da pessoa que está monitorando sua fervura para esparramar-se pelo fogão, obrigando-nos a perder um precioso tempo para limpá-lo.

Ficamos incontáveis minutos diante do fogão, observando-o na leiteira e esperando que finalmente ferva. E nada do leite ferver. Que seja um litro ou uma xícara. Ele fica esperando que o celular toque, que espirremos, que nos agachemos, que algo noticiado na televisão nos distraia etc. Basta um mínimo descuido para que o leite decida: "É agora! O trouxa vacilou!" e espalhe sua grudenta espuma de nata pelo fogão, apagando as chamas, fazendo chiadeira.

Outro ser metafísico é esse tal de update. Esse, porém, não possui um corpo sólido, líquido ou gasoso. Trata-se de um impulso elétrico, gerado dentro informações contidas dentro de um sistema operacional.

Há momentos em que nossos equipamentos decidem fazer o tal do upgrade e não há nada no universo que o impeça.

Afinal, qual a necessidade de um upload diário? Há uploads que acontecem de hora em hora.

Dia desses, durante uma importante reunião de negócios, um sujeito foi impedido de trabalhar  porque o Windows parou de funcionar  para fazer um update. Cada um trabalhando no seu computador e o coitado lá, esperando. Nada da máquina parar de "updatear".

Tentou reiniciar a máquina, o que não lhe foi permitido pelo sistema operacional. Não teve jeito. Restou-lhe suportar meia hora de constrangimento observando os colegas trabalharem e interagirem.

Certa vez, um locutor esportivo começou a xingar o Bill Gates ao vivo, instantes depois de seu notebook ter decidido parar de trabalhar para fazer um update em plena transmissão de uma corrida de Fórmula 1.

Os celulares também estão assim. No entanto, além de se tornarem mais lentos, também requerem um considerável gasto da energia da bateria.

Assim como os programas que fazem uma varredura corrigindo problemas no Ruindows, deveriam criar um desupdatizador.

Um programa que faz uma varredura em todos os programas e sistemas operacionais, eliminando a necessidade de uploads que, escancaradamente ou na surdina, infernizam a vida dos donos de computadores e celulares.

Mas, poderia haver um problema: esses programas anti-upload pedirem upload.

Eparrei!

Proibido upload


sexta-feira, 28 de março de 2014

O significado de dicionário, segundo o dicionário

Obviamente, a maioria das pessoas sabem o que é um dicionário e já teve um nas mãos.

Algumas dessas mesmas pessoas tiveram a curiosidade de saber o que o dicionário diz sobre a palavra dicionário?
Segundo um dicionário, a palavra dicionário significa: "Coleção de vocábulos de uma língua, de uma ciência ou arte, dispostos em ordem alfabética, com o seu significado ou equivalente na mesma ou em outra língua. Sin: léxico, vocabulário, glossário. D. vivo: indivíduo muito erudito ou de grande memória."

O que foi dito foi o óbvio, que todos imaginávamos ou suspeitávamos. Tão óbvia que poderia haver outras respostas. Aqui vão algumas sugestões para o verbete da palavra dicionário no dicionário:

"Só pode ser brincadeira!"

"Você tem certeza de que não sabe?"

"Recoloque este dicionário na estante e vou fazer de conta que você não teve essa dúvida.

"Está na sua mão, imbecil!"

"Se você não sabia o que significava dicionário, o que está fazendo com um dicionário nas mãos?"

"Que dúvida cretina!"

"Tanta coisa importante para aprender e você perde tempo consultando o dicionário para saber o significado de uma coisa que você já sabe!"

Eparrei!

Rogério de Moura
 
 

A Lei de Murphy sob os parâmetros brasileiros

Lei de Murphy sob os parâmetros brasileiros: "Se houver a mínima chance de qualquer iniciativa para o bem da sociedade ser avacalhada, vai avacalhar com certeza."



quarta-feira, 12 de março de 2014

Rogério de Moura, nos traços do cartunista Laerte

Rogério de Moura, cartunista Laerte, Laerte Coutinho, cineasta negro, cinema negro

O Rogério de Moura, médium anarco-cinematográfico que me incorpora, certo dia, mostrou ao cartunista Laerte uma coleção das tirinhas dele, que recortava da Folha de São Paulo e colecionava desde os anos 90. Em agradecimento, ganhou um desenho.

Eparrei!

sábado, 1 de março de 2014

Orgulho em ser...

Mensalão, corrupção, José Genoíno, José Dirceu, Delúbio Soares

terça-feira, 28 de janeiro de 2014

Tabela de preço para esmolas

O Rogério de Moura, médium cinematográfico que me incorpora, comentou, antes da sessão de incorporação, sobre um mendigo que lhe exigiu 20 reais de esmola. Nenhum centavo a menos. 

São longínquos os tempos em que, abordados por um mendigo, fuçávamos os bolsos em busca de algumas moedas, entregávamos o que havíamos encontrado e ganhávamos um humilde "Deus lhe pague!" como retribuição. Quanta saudade!

Hoje em dia, ao entregarmos algumas moedas, grandes são de ouvirmos uma coletânea de palavrões. O mendigo ou qualquer outro tipo de pedinte nos aborda estipulando um valor, esquecendo-se de que, na maioria das vezes, o valor pedido é tudo o que temos na carteira.

Decidi, então, estipular uma tabela de valores para esmolas:

- Mendigo bêbado: 1 real;
- Mendigo bêbado, porém sorrido: 2 reais;
- Mendigo drogado: 50... centavos;
- Mendigo simpático: 3 reais;
- Pedinte com criança: 5 reais, mais 1 real por criança, desde que comprovado que o pedinte é realmente parente da mesma;
- Guardadores de carros: 5 reais;
- Guardadores de carros que dão um trato no veículo (polimento, por exemplo): 10 reais;
- Pedindo esmola nos trens da CPTM ou do Metrô com bilhetinho: 50 centavos;
- Pedindo esmola nos trens verbalmente: 1 real;
- Limpeza de para-brisa em carro estacionado: 5 reais (se o vidro ficar transparente); 1 real, se ficar opaco, com a cor da sujeira da água;
- Limpeza de para-brisa em carro no farol: as moedas disponíveis no porta copo do veículo.

Valores acima desses citados é agiotagem. E o que não falta são pedintes agiotas.

Há mendigos pedindo de 30 a 50 reais, o que é um absurdo. Valores infinitamente superiores a qualquer pedágio. Dá para encher o tanque e rodar pela cidade à vontade, dependendo de quanto o carro bebe.

No entanto, convenhamos, se dermos a sorte de encontrarmos um mendigo simpático, contando uma boa história, uns 20 reais até compensam a criatividade. Dependendo da história.

Fica a dúvida sobre qual será a taxa de imposto a ser descontada e como ficam os recibos ou notas fiscais.

Com base nessa tabela, os pedintes deveriam fazer alguma espécie de curso de mendicância. "Seja um mendigo mais educado, sóbrio e criativo e ganhe mais", seria o slogan do curso que seria pago, é claro, com esmolas.

Eparrei!

Rogério de Moura


quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

Quando a Prefeitura reformou a praça



Finalmente, a Prefeitura decidiu reformar aquela praça, após anos de súplicas de moradores, pedestres, crianças e pombos.
Vieram os caminhões. Uma caravana deles.
Trazendo árvores e variadas plantas, terra e adubo. Trazendo o sol.
Trazendo mesinhas e bancos de concreto. Trazendo desempregados para dormir sobre os bancos de concreto.
Trazendo mendigos, pedintes e flanelinhas.
Trouxeram a barraquinha do pastel com caldo de cana. Trouxeram o pipoqueiro.
Um dos carregamentos chamou atenção: um grupo de idosos para jogar dominó.
Por último, a Prefeitura trouxe a chuva, para regar aquilo tudo.

Rogério de Moura 


sábado, 18 de janeiro de 2014

Retrospectiva 2013, sob a perspectiva de um quintal

Um caboclo russo chamado Tolstoi dizia: "se queres ser universal, mostrais tua aldeia."

Seguindo esse raciocínio, cheguei ao seguinte dogma: "se queres mesmo ser universal, mostrais o teu quintal".

Janeiro
Enchente: enxurrada devasta um formigueiro. Centenas de formigas mortas ou levadas pela enxurrada. Salvaram-se algumas que sabiam nadar.
Jornada: uma lesma inicia jornada rumo ao outro lado do quintal.

Fevereiro
Construção civil: as formigas reconstroem o formigueiro em tempo recorde. 

Mistério: Todo o quintal comentou sobre o estranho caso do desaparecimento do caramujo, que abandonou sua casa e nunca mais retornou. Vizinhos vigiam a casa com medo de invasões.

Março
Natalidade: Natália, a gata vira-latas, deu cria a uma nova ninhada.
Violência: fui picado por uma abelha. Ou vespa. A dor deve ser a mesma.
Agravamento da violência: fui picado por outra vespa... ou abelha.

Abril
Acidente aéreo: uma pomba choca-se violentamente contra o poste do telefone. A Anac não se manifesta sobre o incidente.
Artes: um sabiá que cantava todas as manhãs desapareceu. A vizinhança inteira sente falta do canto.

Maio
Metamorfose: dezenas de taturanas deram um "rolezinho" pelo gramado, devastando a vegetação. Semanas depois, penduraram-se pelo muro e pelas paredes. Caíram-lhe as cabeças. Formou-se uma crosta em seus corpos, convertendo-se em casulo. Dias depois, tornaram-se inquietas borboletas.

Acidente aéreo: uma pipa desgovernada faz pouso forçado. Não houve feridos.

Junho
Arqueologia: depois de aparar a grama, encontro um cachimbo perdido há cinco anos.
Violência 1: impressionante luta entre duas pombas por pedaços de pão que eu havia jogado na grama, achando que elas dividiriam o espaço harmonicamente. Detalhe: eram duas pombas brancas.

Violência 2: bate-boca entre dois bem-te-vis quase termina em briga.

Julho
Atentado ao pudor: duas borboletas exibicionistas foram flagradas fazendo sexo a plena luz do dia e não se importaram.
Violência: terminou uma batalha de vida e morte entre o pé de limão e uma mangueira. A guerra não podia ser vista a olho nu, pois realizou-se debaixo da terra, entre as raízes das árvores. O pé de limão começou a murchar, até secar.

Agosto
Natalidade: Natália, a gata vira-latas, deu cria a uma nova ninhada.
Artes: instalada na mangueira, uma cigarra iniciou sua tradicional temporada de cantoria.

Trânsito: tornou-se cada vez mais intenso o trânsito de formigas, principalmente nos horários de pico, tornando-se necessária a criação de novas vias para a caminhada dos insetos.

Setembro
Violência doméstica: um louva-a-Deus descuidado - devia ter tomado algumas a mais - fez sexo com a esposa, ou amante, e teve um fim trágico.

Outubro
Violência: termina mal para uma mosca seu desafio de voar rasante próximo a uma teia de aranha.
Culinária: uma aranha declara ter devorado uma espécie de mosca rara e deliciosa.
Artes: a vizinhança comemora o retorno do Sabiá, que voltou a cantarolar pelo bairro.

Novembro
Acidente aéreo: outra pomba encontrada morta no quintal. Várias moscas varejeiras sobrevoavam a "nave". Depois de dar um enterro decente ao pássaro, refleti sobre o fato dos pássaros terem a bênção de voar, sem poder, no entanto, apreciar a paisagem, com risco de chocar-se contra alguma parede, muro ou poste.
Enchentes: com o retorno das chuvas de verão, nova enxurrada devasta o formigueiro.

Dezembro
Jornada: a lesma chegou, finalmente, ao outro lado do quintal.
Heroísmo: Salvei o sabiá cantor das garras da Natália, a gata vira-latas. Iniciei tratamento para seus ferimentos e espero que, em breve, ele volte a agraciar a vizinhança com seu canto.
Enchente: nova enchente devasta o formigueiro. Centenas de formigas mortas ou levadas pela enxurrada. Novamente, o formigueiro é reformado, sem qualquer reclamação por parte das formigas.


Rogério de Moura

"Quintal", de Beniamino Parlagreco (1856-1902)








sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

Pai Henrique do PC



Esse, desata qualquer nó do Windows. 

Eparrei!

terça-feira, 7 de janeiro de 2014

Versos do poeta endividado

Um pedaço de papel cochilava
Na mesinha, ao lado da caneta,
Que repousava, quase sem tinta.
Cálculos, não mais palavras,
Fórmulas, não mais devaneios.
Dessa vez, compôs o poeta apenas
Contas que pensavam ser versos,
Números que pensavam ser rimas.


Rogério de Moura



sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

Onde eu gostaria de estar depois de sair de um ônibus* lotado - Capítulo 01


* ônibus = ônibus ou metrô ou trem ou congestionamento ou fila ou...

terça-feira, 31 de dezembro de 2013

Feliz 2015!

                              
       - Feliz 2014!                             
       - Vai ter Carnaval?                               
       - Vai, sim senhor!                               
       - Vai ter Copa do Mundo?                              
       - Vai, sim senhor!                              
       - Vai ter eleições? 
       - Vai, sim senhor!                             
       - Então... Feliz 2015!


Rogério de Moura, eleições, carnaval, copa do mundo de 2014, Jovem Prevo Velho, cineasta negro, cinema negro

terça-feira, 17 de dezembro de 2013

As redes sociais e os apelidos

As redes eletrônico-sociais, quando revelam os verdadeiros nomes dos donos dos apelidos, matam os apelidos de quem a gente conheceu a vida inteira pelo "nome de bastismo involuntário".

É quando se descobre que o Careca é Abelardo, Tubaína é João, o Vesgo é Pedro, o Bilico-Tico é Jorge, O Turcão é Farid, o Maquila é Severino, o Bolão é Emerson, o Pelé é Olavo, o Jagunço é Percival, o Cabeção é Jorge, o Olho Gordo é Carlos, o Mosca de Banana é somente Genésio, o Tonho Feio é apenas Antônio, o Banguela é Laércio, o Perna de Gazela é Abel, o Costa Peluda é Francisco, Zoreia é Mário, o Gildo é Ermenegildo, o Mané é Joaquim...

Que o Zé Preto é apenas José da Silva.

Nem todas as Cidas são Maria Aparecida.

Que os donos dos apelidos, sem os apelidos, parecem outras pessoas.

Ou... outros apelidos.


Rogério de Moura





quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

Maldito update!


A cada update, mais tralhas, mais peso.

Fui nas configurações do Firefox, cliquei em "NUNCA MAIS FAZER UPDATE" (o nome não era esse mas um comando parecido). E, não fiquei nisso, descliquei tudo que tivesse qualquer indício de update. 

Mas não teve jeito. Lá estava ele, fazendo o maldito update. Pressionei escape, ctrl+alt+del... nada! Não parou.

E, posso jurar, o Firefox tava mostrando a língua para mim.

Eparrei!




terça-feira, 10 de dezembro de 2013

Confusões numa estação de metrô lotada


Estavam os dois lá, na estação de metrô, observando a movimentação durante o horário de pico, assombrados com a truculência das pessoas.

- Olha só aquela moça desmaiada na plataforma. 

- E o que você queria? Não cabe ninguém. Nem um pombo. É a lei do espaço: dois corpos não ocupam o mesmo lugar.

- E ninguém sabe disso?

- Sabem, mas fingem não saber.

Pouco tempo depois, outra confusão:

- O coitado quase caiu nos trilhos!

- O anjo da guarda dessa gente trabalha muito!

- Deveriam cobrar hora-extra.

Não tardou, outro tumulto:

- Olha lá, dois homens brigando!

- Socos, cotoveladas... Não teria lugar melhor pra bigar? Uma praça. Tem espaço.

- Eles são exibicionistas. Precisam de gente olhando.

- Mas, numa praça também tem gente pra ver. E muito mais espaço.

Corre-corre. Seguranças cercam um rapaz. Parece que tentou assaltar uma senhora. É retirado da plataforma ainda tentando escapar. Os passageiros xingando e cuspindo em seu rosto. E os dois amigos assistiam a tudo, resignados:

- Não tem jeito. 

- Todo dia é a mesma coisa.

Então um olhou pro outro e disse: 

- Sabe de uma coisa? Deixa esse bando de trouxas aí, se ferrando. Vamos dar uma volta?

- Demorou!

Eles se conheciam há muito tempo, enquanto defecavam na cabeça de uma pobre estátua. Abandonaram a confusão da estação do metrô e voararm rumo a uma praça tranquila para, se tiverem sorte, encontrar alguém jogando pipoca na calçada.


Rogério de Moura


Metrô, metrô lotado, transporte, mobilidade, pombos, humor






quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

Caiu uma moeda atrás do sofá


A moeda saltou de sua mão, 
Fazendo acrobacias impossíveis.
Jeito não houve de pegá-la.
Rolou atrás do sofá.
Pra não esquecê-la
Jeito foi resgatá-la.

Encontrou a moeda acrobata,
Um botão de paletó,
O esqueleto de uma barata,
Alguns sonhos pendentes,
Moscas jogando cartas,
Uma comunidade de pulgas,
Uma favela de formigas.

Atrás do sofá encontrou
Um arquivo de ofensas esquecidas,
Alguns desejos de parabéns,
Bilhetes de loteria não conferidos,
Uma horta de paixões abortadas,
Frascos de remédios entorpecidos,
Embalagens de pizza,
Um museu de cicatrizes,
Alguns sorrisos em greve.

Rogério de Moura


terça-feira, 26 de novembro de 2013

O gatinho e o cientista maluco


Um conto de terror infantil


No topo de uma montanha existia um casarão no qual morava um cientista maluco que tinha um laboratório que ocupava quase todo o lugar.

A única companhia do insano cientista era a de um gatinho branco chamado. Sardinha. A cor dos pelos do gato é branca e isso deve ser pelo fato de que, geralmente, é a preferência dos cientistas que vivem em casarões. Ou talvez porque eles tenham medo de gatos pretos.

Nos momentos em que não estava inventando coisas malucas, o cientista ficava em sua grande sala repleta de móveis soturnos e livros sobre ciência. Gostava de gastar esses momentos contemplando o gatinho a brincar com novelos de lã, arranhar o sofá com suas garras. Gostava também de sentir o calorzinho do felino enquanto o animal aninhava-se em seu colo, ronronando.

No entanto, a presença do gatinho não mais conseguia aliviar a sensação de solidão que dia sim dia não assolava o cientista. Durante sua vida, nunca conseguiu que nenhum ser humano lhe fizesse companhia naquele soturno casarão por mais de algumas horas.

Um dia, o cientista teve a idéia de criar um equipamento que o possibilitaria conversar com o gatinho, entender o que fala e ser pelo bichano compreendido.

Foi o que ele fez. Invento inventado, lá estava o aparelho que continha duas espécies de penicos conectados a uma porção de fios. Um penico grande, para caber em sua cabeça e um peniquinho para caber na cabeça do gatinho.

Tudo pronto, equipamento ligado, chegou a hora do barulho dos motores e do brilho de choque iluminar todo o casarão. Quem estivesse assistindo a isso tudo não saberia se o forte brilho saía do aparelho que o cientista inventou ou da noite de tempestade cheia de raios e trovões. Todo topo de montanha que tem um casarão com um cientista maluco morando tem disso: sempre tem noite de tempestade cheia de raios e trovões.

Depois de algum tempo, lá estavam cientista e gatinho conversando. O cientista falava sobre mulheres e inventos científicos. O gatinho sobre bolas de lã, peixes no aquário, passarinhos na gaiola e sobre benefícios de se lamber.

Horas de prosa se passaram. Infelizmente, o assunto de um não interessava ao outro. Então, o cientista mudou o rumo da prosa:

- Você sabia do poder de destruição dos gatos?

- Não! Eu tenho poder de destruição?

O cientista pensou que o poder de destruição dos gatos seria um assunto prá lá de científico e renderia uma conversa na qual os dois se entendessem. E desatou a falar da potência do salto do gato, da agilidade felina e do grau de destruição que suas garras causariam em um ser humano. O gato ficou espantado com tudo aquilo:

- Posso tranquilamente matar uma pessoa? - perguntou o felino.

- Pode! Fácil, fácil! Sorte que os gatos não sabem disso. Eles poderiam ser perigosos. Um gato pode, quando não estiver contente com alguém, até matar uma pessoa. Qualquer pessoa. Bastaria querer e... Depois de muitos rasgos, lá estaria o ser humano mergulhado numa poça vermelha, sem chances de sobreviver.

O gato cravou um olhar malicioso na direção do cientista.

- Qualquer pessoa mesmo?!

E, qualquer pessoa que estiver passando pelo vale onde fica a montanha onde tem o casarão aonde mora o cientista maluco pode ouvir um miado feroz de um gato que está, há muito tempo, trancado num sótão.

Quem algum dia puder utilizar a máquina inventada pelo cientista maluco para entender o que os gatos dizem, saberia o que aquele miado estava querendo dizer:

- Eu vou te matar, filho da pu...!

A frase pararia no meio do palavrão. O cientista maluco não programou a máquina para traduzir palavrões felinos.

Rogério de Moura 


 

sábado, 23 de novembro de 2013

Para onde o palavrão sopra

Um micro conto sobre gente proferindo palavrões, sem nenhum palavrão:

De repente, explodiu a discussão. Não se soube quem começou. Palavrões foram ditos e houve até uns inventados no momento.

Os elogios ao avesso começaram a se intensificar e ganhar volume. A temática girava em torno da mãe de cada um, da honra de cada um, da sexualidade de cada um.

Não se contiveram e levantaram-se de seus bancos e quase foram às vias de fato não fossem os outros amigos conseguirem contê-los.

De uma das bocas, não se sabe de qual, saltou a primeira ameaça de morte. Foi quando os demais perceberam que o assunto foi além do que deveria.

Sempre surge a turma do "deixa disso" nesses momentos. Acalmados os ânimos, cada um foi embora, tomando direções diferentes, praguejando pela rua.

Os outros idosos que permaneceram pensavam nos substitutos para aqueles dois desfalques naquele banco de praça. Um deles disse:


- Imagine a gente tivesse uma torcida organizada nesse jogo?

Rogério de Moura

Rogério de Moura, cobras e lagartos

terça-feira, 12 de novembro de 2013

Academia, cigarro e cerveja

Um grupo de amigos entrou na academia. Tempos depois, saíram do templo dos corpos esculpidos, ainda enxugando os cabelos molhados na ducha.

Poucos passos adiante, entraram no boteco ao lado, pediram umas brejas, acenderam cigarros e ficaram papeando... papeando... papeando. Mais tempo do que ficaram malhando.

Antes, era o momento dos músculos trabalharem. No boteco, era o momento de exercitar o sorriso.


                                                                         
                                                                                                                                       Rogério de Moura