sábado, 29 de agosto de 2015

Pai e mãe, segundo o politicamente correto

Agora é assim: não se pode dizer apenas ¨todos¨. Deve se dizer ¨todos e todas¨. 

¨Olá, todos e todas!¨, ¨Bom dia, todos e todas¨ e assim por diante.

Estou pensando que não vai demorar muito e o Politicamente Correto não vai permitir que se diga apenas a palavra ¨pai¨ e ¨mãe¨.

A pessoa terá que dizer ¨pai biológico¨ ou ¨pai adotivo¨, ¨mãe biológica¨ ou ¨mãe adotiva¨.

Mas, logo um gênio do Policitamente correto chegará à conclusão de que a palavra ¨adotivo¨ é ofensiva. E, em pouco tempo, todos estarão dizendo ¨pai biológico¨ ou ¨pai não biológico¨, ¨mãe biológica¨ ou ¨mãe não biológica¨.

E toda a imprensa e os meios de comunicação e, é claro, os politicamente corretos estarão monitorando o que dizemos, para que não caiamos na gravíssima infração em simplesmente dizer ¨pai¨ ou ¨mãe¨, sem que estas palavras estejam acompanhadas das devidas classificações de paternidade.

E, um professor, ao reunir-se com um grupo de pais e mães de alunos, será obrigado a dizer: ¨Olá, pai biológico e adotivo, e olá mãe biológica e adotiva.¨

Tudo em nome do Politicamente Correto. 

Eparrei!

(Rogério de Moura)



terça-feira, 4 de agosto de 2015

Um semáforo cansado

Semáforo abriu-fechou
Depois fechou-abriu
Tanto que tempo passou.
O semáforo refletiu:
"Estou entediado e doente,
Verde, amarelo, vermelho,
Depois verde novamente.
Estou ficando velho."
Trombadas, pneus cantando,
Gritos, pessoas atropeladas
E um semáforo lamentando
Por ser uma alma cansada.



(Rogério de Moura)


segunda-feira, 22 de junho de 2015

Breves reflexões de um suicida

Como o tempo é coisa relativa, enquanto descia do vigésimo andar, rumo ao térreo, ele teve tempo suficiente para repensar sobre os problemas de sua vida.

Chegando ao décimo quinto, lembrou-se do sequestro relâmpago que havia sofrido e as horas nas quais passou nas mãos do bandido. Depois concluiu que poderia superar o trauma e, quem sabe, mudar de cidade, ou ostentar menos riqueza e se prevenir quando fosse sacar uma grana no caixa eletrônico.

Chegando ao décimo andar, pensou na fortuna que devia aos bancos e em seu nome sujo na praça. Os juros abusivos. Logo em seguida, concluiu que o problema nem era tão grave assim. Poderia fazer algum acordo com os bancos e, com muito sacrifício, quitar as dívidas e limpar o seu nome no Serasa e no SPC.

No quinto andar, lembrou-se da esposa, que havia lhe pedido o divórcio. Pensou na divisão dos bens e sobre o quanto lhe sobraria depois da separação. Pensou também no vazio afetivo que herdaria. Logo a seguir, concluiu que poderia, a partir disso, encontrar um novo amor e recomeçar uma nova vida a dois com novos desafios.

Por último, pensou nos filhos. Sempre reclamavam da ausência do pai. Nunca tiveram boa relação. A filha, ainda adolescente, havia engravidado. Mas, assim que teve essa lembrança, pensou que poderia reaproximar-se dos filhos e tornar-se um pai mais presente. E que, apesar da filha ser muito jovem, ela e o futuro pai da criança poderiam, com esforço e dedicação, dar uma vida decente à criança.

Afinal, eram coisas que o afligiam. Problemas que poderiam ser agravados, mas também solucionados, com maior ou menor esforço. Apenas hipóteses.

Naquele momento, ele estava chegando ao primeiro andar. Restou-lhe alguns instantes para lembrar-se das pessoas que amava e que estava deixando. Concluiu naquele momento que não as queria deixar. Mas não havia jeito: havia pulado do vigésimo andar.

Depois disso, não pensou em mais nada.
   
 
Rogério de Moura
 
 
 
 

Eu prefiro um x-salada

Em um restaurante...

- Você vai pedir strogonoff?

- Que é que tem?

- Que é que tem? É nojento!

- Nojento por quê?

- Oras, o boi foi amamentado com o quê? Com leite. A carne do strogonoff é bovina, o leite também! E aí, se prepara a carne do boi com o que ele foi amamentado... É nojento! Eu prefiro um x-salada!

Instantes depois estavam ambos almoçando naquela lanchonete. Um, com o strogonoff que pediu. 

O outro, com nojo do strogonoff, pediu um cheese burguer com alface e tomate, ou melhor, um x-salada, ou melhor, pedaços de boi moídos, preparados com um produto feito do leite colocado dentro de um pão, acompanhado por alface e tomate.

(Rogério de Moura)







Fellini

Fellini é um daqueles raros (muito raros) diretores de cinema cujos filmes, depois de vistos, deixam no espectador a dúvida se assistiu a um filme ou se sonhou.

Fellini, Rogério de Moura

quinta-feira, 11 de junho de 2015

Infância

Infância:
Fase em que todas as pessoas vivem
Antes de se tornarem adultas, chatas

e preocupadas com contas.


Sonhando

Se eu estiver sonhando
não me acorde.
Se o sonho for bom 
e me vir sorrindo,
deixe-me lá, 
onde eu estiver existindo.
Se perceber que tenho pesadelos
não acorde também.
Amanhã, não tenho folga.

Amanhã, levanto cedo.

(Rogério de Moura)

Rogério de Moura, Jovem Preto Velho, Vila Santa Isabel
Ilustração: Yacek Yerka

Bem-vinda

Seja bem vinda
A esta casa
Chamada coração,

Muito mais ainda:
Pouse tua asa,
Na grama, pelo chão.

Tire da berlinda
Sua alma em brasa,
Guarde-a no colchão.

(Rogério de Moura)



Hozana, Rosana

Rosana, Rosana…
Quem veio antes?
O açúcar ou a cana?
O amor, os amantes?
A oração, a hozana?
As cheias, minguantes?
O mês, a semana?
O depois, o antes?

A Rosa ou a Ana?

Rogério de Moura


Duas notícias sobre o futebol brasileiro, uma boa, outra ruim

A má é que estamos tendo, nestas últimas décadas, a pior geração de jogadores de todos os tempos.
A boa: nunca na história dirigentes e empresários tiveram tantos lucros com esses pernas de pau.

Pensando bem, não há notícia boa.

Eparrei!



Futebol brasileiro, Seleção Brasileira, Neymar, Ronaldo fenômeno, Fifa, CBF

quinta-feira, 7 de maio de 2015

quinta-feira, 16 de abril de 2015

Três Moscas e um Prato de Sopa (O Caso da Mosca Ciumenta)

Três moscas e um prato de sopa. Duas delas, tristes, observavam o corpo da terceira boiando no líquido, entre duas letrinhas (era uma sopa de letrinhas) e um grão de ervilha. Eram dois velhos amigos que se conheciam desde a infância. Ou seja, conheceram-se vinte e quatro horas antes. Um deles chorava copiosamente, afinal, era casado com a mosca "recém-morrida".

Enquanto soluçava, disse ao amigo:

- Ela vivia dizendo que, se eu a traísse, iria se atirar no primeiro prato de sopa que encontrasse. Nunca achei de que ela seria capaz disso!

Chegou o garçom, interrompendo o velório.

Rogério de Moura




sexta-feira, 13 de março de 2015

Aquela música do Beethoven

Alfredo era fã de Beethoven. Especialmente de ‘Für Elise’, ou 'Pour Elise', ou 'Para Elisa', sua música predileta. Foi a primeira que aprendeu a tocar ao piano. 

São incontáveis os LPs e depois os CDs que colecionou em toda sua vida. Graças a essa coleção, ouviu 'Para Elisa' através das tocantes interpretações dos mais renomados músicos e maestros por todo o planeta.

Sabe de cor acerca história da célebre composição: feita para homenagear Elisabeth Röckel, nascida em 1793, irmã caçula do cantor Joseph Röckel, que em 1806 cantou o papel de Florestan na única ópera de Beethoven, "Fidelio", sob a regência do próprio compositor. Assim como seu irmão, a graciosa bávara, que os amigos chamavam "Elise", afeiçoou-se ao excêntrico gênio nascido em Bonn. Alegre e despreocupada, ela possuía também talento musical, tocava piano e mais tarde tornou-se cantora. Na primavera europeia de 1810, mudou-se de Viena para Bamber.

Um dia, Alfredo se apaixonou. Curiosamente, o nome dela era... Elisa. Não se sabe se foi por coincidência ou por obsessão do fã de Beethoven. 

A obsessão por aquela música do beethoven o fez brigar com a noiva para que 'Para Elisa' fosse tocada na cerimônia de casamento, no lugar da "Marcha Nupcial" de Mendelsohn. Foi vencido. Mas os convidados da festa tiveram que ouvir o clássico beethoviniano inúmeras vezes durante a festa, interpretada por uma banda composta por um trio de guitarra, teclado e bateria.

A relação de amor com 'Para Elisa, supunha-se, seria eterna.

Até que começou a ser tocada pelo caminhão do gás.

(Rogério de Moura)


quarta-feira, 4 de março de 2015

João, Maria e as baratas

"Joãozinho e Maria caminharam até aquela misteriosa casa. Repararam que realmente parecia ser feita de doces. Joãozinho pegou a maçaneta e sentiu-a frágil em suas mãos. Retirou um pedaço e provou. Sim, era feita de doces! Maria lambeu um pedaço do batente. "Delicioso!", disse, admirada. Arrancou um pedaço e comeu. Perceberam que a casa era toda feita de doces e..." 

E as baratas? Onde estavam as baratas? 

(Rogério de Moura)


terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

Museu em Pessoa

Sonhos, lágrimas, mortes, nascimentos, crenças, convicções, aprendizados, bebedeiras, brigas, vexames, reconciliações, dançar, correr, andar, cair, nascer, crescer, bater, apanhar, mentir, revelar, sorrir, esquecer, lembrar...

Cada pessoa é um museu dela mesma.

(Rogério de Moura)




segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

O crime da mosca na sopa

O cliente, com olhar furioso, chamou pelo garçom:

- Tem uma mosca no meu prato!

Ao ver o inseto boiando no prato de sopa, o garçom caiu em prantos:

- Matilde! 

O cliente ficou perplexo com o que viu. Logo, surgiu a cozinheira:

- Matilde! Como isso pôde acontecer? Matilde! Não!

Em seguida, veio o gerente dor restaurante:

- Matilde! Que mundo cruel!

Um fiel frequentador do restaurante se manifestou:

- Ontem mesmo eu a vi! Pousou na mesa onde eu estava. Depois, na cabeça do meu filho. Tadinha! Que mundo violento é esse?

Quem teria sido o autor do assassinato? Os funcionários fuzilaram o cliente dono da sopa com um olhar de suspeita:

- Eu? Não tenho nada a ver com isso! - defendeu-se.

Chegou a polícia. Depois, uma viatura do IML. O restaurante foi fechado pela Perícia. O cliente teve que ir à delegacia prestar depoimento.

(Rogério de Moura)





Quando começa o ano e quando termina o Carnaval?

Há datas comemorativas que foram criadas para finalidades comerciais. Estão aí o Dia das Mães, Dia dos Pais, Dia dos Namorados que não me permitem estar mentindo. Além do Natal, antes, criado para fins religiosos e que descambou para o comércio puro.

Como o ano, no Brasil, começa pra valer depois do Carnaval, por que não instituir oficialmente fim-de-ano entre o Natal e a Festa Popular?

Ou seja: fim de ano dura entre o Natal e o Carnaval. É o que está acontecendo na prática. Apesar de que... difícil saber se, no Brasil, quando começa o ano e quando termina o Carnaval.

Eparrei


sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

Os dias de folga do ventilador

Depois de meses de calor intenso, dias de 29 graus pra cima, finalmente uma frente fria duradoura.

Nesses meses, o ventilador trabalhou praticamente 24 horas por dia. Com a frente fria, dei uma folga ao ventilador.

Ele não se conteve de alegria. Nos primeiros dias, foi pra alguns botecos e só voltava bêbado, de madrugada. Depois, mais comedido, talvez pela ressaca, bebeu com moderação.

Até arranjou uma namorada.

Mas o Verão ainda não acabou e, segundo a previsão de meteorologia, dias quentes ainda virão.


Enquanto isso, o ventilador curte alguns dias de folga, esperando ansiosamente pelo mês de Julho quando, aí sim, poderá ficar mais tempo com a namorada.

Eparrei!


quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

Criança na janela

As moléculas da água, quando congelam, 
ficam duréculas,
Disse a criança à janela, 
vigiando o pôr do sol
contando as pessoas e os cães na rua.
"O sol, quando é dia, é claro.
À noite, o sol fica escuro."


Rogério de Moura


Partidos políticos e militantes

Antigamente, os militantes de um partido político diziam: "O meu partido é a solução para a corrupção."

Hoje em dia, os militantes, convertidos em torcedores de partido político, dizem: "O meu partido é menos corrupto que o seu."

Eparrei! 




1 milhão na conta bancária

Entraram...

Entrou 1 milhão a mais de lucros na conta de um conceituado banqueiro, cujo patrimônio beirava a um bilhão e que agonizava de câncer, na luxuosa cama, no luxuoso quarto, da luxuosa mansão, do luxuoso condomínio.

Entrou 1 milhão a mais de lucros na conta de um famoso jogador de futebol. Vindo de família humilde, tendo inúmeros assessores cuidando de sua contabilidade. Ele joga em um famoso time de grande torcida. Assinou recentemente, vultuosos contratos de publicidade. Ele não chegou a cursar a escola. Tampouco, depois da fama, contratou um professor particular. Dá coletivas tropeçando na língua nativa. Não sabe diferenciar cem reais de um milhão.

Entrou 1 milhão na conta de um respeitado deputado. É a soma de...

Entrou 1 milhão na conta de um pobre. Pensando bem, não entrou: ele não tinha conta bancária.



terça-feira, 20 de janeiro de 2015

Líquidas palavras líquidas

Sonho com a fluência das sílabas
Mas sigo em minha pobre gramática.
Gostaria que saíssem líquidas.
Não tortas, incertas, erráticas.
Sem um barco para a boca náufraga
Afogo a língua em verbos tímidos.
Encontrasse uma ilha atlântica
Pequena, irreal, quase quântica
Para, na areia, dormir sonho lúcido.
Quê isso! É tudo algo insólito!
Sem terra, sem mar, sem público,
Vou gaguejar até o fim do fôlego.

Rogério de Moura












quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

Notícias urgentes de um quintal com pé de manga

1. 
Uma mulher grávida passou em frente da casa, cessou os passos, retornou e parou em frente ao portão, indiferente ao enorme cão que a monitorava, flertando com o pé de manga carregado. Bateu palmas. 

Ninguém atendeu. Ela foi embora, com a boca salivando.

2.
No bar, em frente da casa, alguns fregueses participavam de uma acalorada discussão sobre quantas mangas haveriam na mangueira carregada.



segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

Assaltaram o poeta, o compositor, o filósofo e o profeta


Assaltaram o poeta,
Armas em punho, mandaram
Que passassem toda gramática
Angústia e devaneios.

Assaltaram o compositor,
Surrupiaram a inspiração,
As noites de insônia,
A euforia depois de um refrão.

Assaltaram o filósofo
Levaram toda a racionalidade,
Questionamentos e suposições.
Anotações que fez de cabeça.

Assaltaram o profeta,
Levaram os delírios,
As certezas, o desapego,
E seu cajado imaginário.

Do mendigo dormindo na rua
Enojados, nada levaram.
Nele adormeciam a filosofia,
A profecia, a música e a poesia.


Rogério de Moura

Rogério de Moura

domingo, 4 de janeiro de 2015

Retrospectiva 2014

Um caboclo russo chamado Tolstoi dizia: "se queres ser universal, mostras tua aldeia". Pois bem... seguindo esse raciocínio, cheguei ao seguinte dogma: "se queres ser universal, mostras teu quintal". Decidi fazer a minha "Retrospectiva 2010", sob o ponto de vista do meu quintal.


Janeiro
Enchente: enxurrada devasta um formigueiro. Centenas de formigas mortas ou levadas pela enxurrada.
Jornada: uma lesma inicia jornada rumo ao outro lado do quintal.

Fevereiro
Construção civil: as formigas reconstroem o formigueiro em tempo recorde.

Março
Natalidade: A gata vira-latas da vizinha, deu cria a uma nova ninhada.
Violência: fui picado por uma abelha.
Agravamento da violência: fui picado por uma vespa.

Abril
Acidente aéreo: Uma pomba choca-se violentamente contra o poste do telefone. A Anac não se manifesta sobre o incidente.
Artes: Um sabiá que cantava todas as manhãs desaparece. A vizinhança inteira sente falta do canto.

Maio
Metamorfose: Dezenas de taturanas caminham pelo gramado, devastando a vegetação. Semanas depois, penduram-se pelo muro e pelas paredes. Dias depois, as taturanas tornaram-se inquietas borboletas.
Tráfego aéreo: Três pipas caem no quintal. Um deles enrosca-se no pé de boldo.

Junho
Arqueologia: Depois de aparar a grama, encontro um cachimbo perdido faz cinco anos.
Violência: impressionante luta entre duas pombas lutando por um punhado de pães que eu havia jogado pensando que elas dividiriam o espaço harmonicamente. Detalhe: eram duas pombas brancas.

Julho
Artes: Um beija-flor surgiu do nada, surpreendendo-me. Achava que, em São Paulo, há muito tempo estavam extingos.
Atentado ao pudor: Duas borboletas exibicionistas foram flagradas fazendo sexo a plena luz do dia e não se importaram.
Violência: Termina uma batalha de vida e morte entre o pé de limão e a mangueira. A guerra não podia ser vista a olho nu, porque se realizou debaixo da terra, entre as raízes das árvores. O pé de limão começou a murchar, até secar.

Agosto
Tráfego aéreo: Cinco pipas caem no quintal. Dois deles enroscam-se na mangueira.
Artes: Istalada na mangueira, uma cigarra inicia sua temporada de cantoria.
Construção civil: As formigas inauguraram um novo anexo do formigueiro, com capacidade para centenas de novas formigas.

Setembro
Natalidade: A gata vira-latas da vizinha, deu cria a uma nova ninhada.
Tráfego aéreo: Surpreendentemente, apenas uma pipa enrosca-se na mangueira.
Violência doméstica: Um louva-Deus descuidado - devia ter tomado algumas a mais - fez sexo com a esposa, ou amante, não sei, e teve um fim trágico.

Outubro
Violência: Termina mal para uma mosca seu desafio de voar rasante a uma teia de aranha.
Artes: A vizinhança comemora o retorno do Sabiá, que voltou a cantarolar pelo bairro.

Novembro
Acidente aéreo: outra pomba encontrada morta no quintal. Várias moscas varejeiras sobrevoavam a "nave". Depois de dar um enterro decente ao pássaro, refleti sobre o fato de os pássaros terem a bênção de voar, mas que não podem perder tempo observando a paisagem.
Enchentes: com o retorno das chuvas de verão, nova enxurrada devasta o formigueiro, com todos os anexos.

Dezembro
Jornada: a lesma chega, finalmente, ao outro lado do quintal.
Tráfego aéreo: quatro pipas caem no quintal e duas no telhado.
Heroísmo: Salvei o sabiá cantor das garras da gata vira-latas da vizinha. Iniciei tratamento para seus ferimentos e espero que, em breve, ele volte a agraciar a vizinhança com seu canto.

Axé!

Rogério de Moura


sábado, 3 de janeiro de 2015

O relógio dos costumes

Tique-taque

Anos passam

Tique-taque

O povo quer liberdade

Tique-taque

Anos passam

O povo quer conservadorismo

Tique-taque

Anos passam

Tique-taque
O povo quer liberdade

Tique-taque

Anos passam

O povo quer conservadorismo

Tique-taque...

Lei de Compensação Moral

A compensação ambiental e florestal funcionam como uma contrapartida a ser "paga" pelo empreendedor por qualquer impacto que venha causar ao meio ambiente. Têm como base a Lei Complementar 827/2010 - que cria o Sistema Distrital de Unidades de Conservação (SDUC), Ibram e os Decretos Distritais nº 14.783/1993 e 23.585/2003.

A natureza pode agradecer. Mas, bem que poderiam inventar a Compensação Moral. Afinal, vivemos numa época onde dizer um "por favor" ou um "me perdoe" tornaram-se coisas impensáveis.

A Lei de Compensação Moral preveria que:

- Quando alguém sacaneia alguém, deveria ajudar pelo menos outras duas pessoas.

- Se surrupiou o dinheiro de alguém ou lhe proporcionou algum prejuízo financeiro, ajude financeiramente duas pessoas. 

- Se feriu alguém, ajude na recuperação da saúde de outras duas ou três pessoas.

- Se discutiu ou ofendeu alguém, faça outras três pessoas sorrirem.

- Se injuriou alguém, elogie outras cinco pessoas.

- Se matou um animal, ajude a criar ou adotar outros três.

A espécie humana deveria ser também tão cuidada quanto a Natureza, apesar de estar tudo incluído no mesmo pacote que habita este planeta. Contudo, certamente diminuiríamos o impacto das sacanagens que cometemos uns com os outros.

Eparrei!


Rogério de Moura
Ilustração: iStock-Thinkstock


sexta-feira, 2 de janeiro de 2015

Mosca no feijão

Contemplando a mosca que boiava no caldo do feijão colocado em seu prato, pensou: "Deveria haver um CVV para moscas que tenham intenções suicidas!"


Estiagem paulistana

Depois da memória quase se perder
nas contas dos meses de estiagem,
cozinhando a pele e as estações,
a nostalgia dos tempos de chuva
que envernizava prédios, asfalto e automóveis.
Das gotas que faziam o ar 
lembrar
que era ar. 

Rogério de Moura


quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

Para qual estado sairá a Mega-Sena da Virada?

São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais são os estados mais populosos do Brasil e os que têm mais casas lotéricas. Mas a Mega-Sena da Virada costuma a sair em estados com menos habitantes. Estranha estatística da Mega-Sena.



segunda-feira, 10 de novembro de 2014

A Gangue dos Beija-Flores

Ninguém sabe quem foi. O que importa é que disseram a um beija-flor sobre suas qualidades: a elegância, a rapidez e a agilidade do voo e a precisão do traçado de suas rotas. Agilidade, em termos de aviação, comparável ao helicóptero. Até o momento do elogiante dizer: "Se vocês se juntassem em bando, não tinha pra ninguém!"

O beija-flor que ouviu o elogio comentou com outro, que comentou com outro e assim, sucessivamente. E as palavras foram conquistando repercussão no mundo beijafloriano.

Assim, nasceu a Gangue dos Beija-Flores que, unidos, andam aterrorizando a vida de rolinhas, bem-te-vis, sabiás, pombos e urubus, entre outras categorias aladas.

Desde então, não há um único ser empenado que se aproxime que não seja abordado pelos violentos e intolerantes beija-flores cobrando pedágio para voar pelos céus do bairro.

As propinas variam de folhas a grãos de cereais. Mas há beija-flores mais gananciosos, pedindo ninhos e outras ninharias. O pássaro que se recusar é agredido sumariamente pela gangue, especializada em ágeis golpes vindos de todos os lados. Ágeis, não há quem consiga revidar.

Houve um canário que piou o seguinte trocadilho: "Os beija-flores não sentem 'pena' de ninguém!" Também houve o caso de uma maritaca que pagou com um pote de água e açúcar.


Eparrei!

Rogério de Moura

segunda-feira, 6 de outubro de 2014

As eleições e um piloto automático

Quem entrar, tanto faz. Corrupção, falcatruas, desvio de verbas, pobreza (por mais que tentem escondê-la), violência e o povão sempre acreditando em dias melhores.

O Brasil, há décadas, está no piloto automático. Mas, para que se mantenha os de sempre, é preciso encenar esse circo político. 

E a gente vai levando, a gente vai levando, a gente vai levando...

Eparrei!

terça-feira, 16 de setembro de 2014

Que fim levou o 7 de Setembro?

Chegando em 16 de Setembro, o mediu cinematográfico Rogério de Moura, que me incorpora de vez em quando, sentiu a sensação de ter esquecido algo. Como alguém que sai apressadamente de casa e tem a sensação de que deixou algo em casa. Vasculha nos bolsos, a carteira está lá, e também o celular, as chaves. Põe a mão no rosto e vê que não esqueceu os óculos. A cabeça também estava no pescoço. O que havia esquecido?

Subitamente, lembra-se: o 7 de Setembro!

Cadê o 7 de Setembro? Onde foi parar? Caiu no chão durante a correria? Ficou no vão do sofá, atrás da poltrona? No chão do ônibus ou do metrô? Quem sabe o encontramos no Achados e Perdidos, junto com dentaduras, óculos, guarda-chuvas?

Passamos pelo sétimo dia de setembro e ninguém tocou no assunto.

Hoje é dia 16 de setembro. E o mês de Setembro, pouco tempo atrás, evocava a algo que hoje em dia era remoto: o mês da Independência, do "Ouviram do Ipiranga", o quadro do Pedro Américo, no qual Dom Pedro II levantando a espada em meio aos soldados, do caboclo quase seminu assistindo a cena.

Sabemos que não foi bem assim. Que o casebre do Ipiranga não estava lá, que o Dom Pedro II não estava vestido daquele jeito, que, segundo alguns historiadores, carecia de uma diarreia fortíssima no dia e no momento histórico.

Para muitos, principalmente os mais jovens, essa data representa repressão, Ditadura Militar, professores opressores, obrigatoriedade de se decorar o Hino Nacional e entoá-lo com a mão direita sobre lado esquerdo do peito.

Muitas pessoas hão de se lembrar que, quando criança, era uma data importantíssima. Tinha os Dragões da Independência, o filme do Tarcísio Meira fazendo o Dom Pedro II, desfile, parada, Hino Nacional e o escambau. Todo mundo dizia, de boca cheia: "Semana da Independência". Os professores pediam trabalhos escolares, redações e... É claro, o escambau.

Passou tão despercebido que nem acho que nem a imprensa tocou no assunto.

O dia 7 de Setembro passou para a galeria das datas e lembranças perdidas na memória.

Ou, como diria o Lula: "Nunca, na história deste país, o 7 de Setembro..."

Voltando ao mundo espiritual, no Beco do Além, na Esquina das Almas Angustiadas, encontrei o Pedro Américo, autor da pintura da Independência do Brasil. Estava triste pelo esquecimento de tão célebre data. Perguntei para ele não pintou a cena da Independência tal qual ela aconteceu na realidade. Ele foi lacônico:

"Liberdade poética. Mente-se descaradamente para se tornar uma situação mais atraente. Os políticos sempre utilizam isso durante as eleições."


Eparrei!

(Rogério de Moura)



sábado, 13 de setembro de 2014

O conceito de mulato no Brasil

Negros Geniais, negritude, preconceito racial, racismo, ação afirmativa, Rogério de Moura, mulato

O conceito de mulato, no Brasil, é relativo.

Mulato no Brasil...

É negro quando...
Precisa de emprego,
precisa de escola,
precisa de moradia
precisa de transporte.

É branco quando...
Torna-se alguém de sucesso,
torna-se um escritor conceituado (Machado de Assis, Lima Barreto...),
torna-se presidente do Brasil (Nilo Peçanha),
torna-se um artista conceituado (Chiquinha Gonzaga, Paulinho da Viola, Jece Valadão),
torna-se um jogador de futebol bem sucedido (exemplos não faltam).

(Rogério de Moura)

Coisas entre o Céu, a Terra e um banco de praça

Ninguém percebeu:
Um mendigo acordou, em meio a farrapos, entulhos ressaca e fome.
Despertou e bocejou a vida.
Agradeceu ao banco de praça onde dormia
Varreu a praça e foi embora.

Ninguém percebeu:
Um garoto tentando roubar os celulares de dois meninos,
Uma família humilde dividir uma refeição,
Crianças de rua brincando com materiais escolares catados no lixo,
Um velho tocador de violino, uma dupla de repentistas,
Um jovem casal de namorados surpreendidos com a gravidez da garota.
Um traficante de drogas fazendo negociação,
Um empregado, um desempregado
Um bêbado usando o vento como muleta.

Ninguém percebeu:
Uma taturana arrastando-se pelo tronco de uma árvore,
Uma procissão de formigas pela rachadura da calçada,
Uma planta nascendo em meio ao capim de um buraco.

Ninguém percebeu:
Que, quando choveu, um viralatas abrigou-se debaixo do banco 
Cumprimentando um casal de pombos.

Ninguém percebeu:
Nem polícia, nem políticos, nem o povo.
À noite, o mendigo retornou, 
com seu mundo amontoado em um carrinho de supermercado enferrujado,
Desejou boa noite ao banco e dormiu.

Ninguém percebeu.


Rogério de Moura




Moeda que cai no chão e se esconde

Geralmente, a moeda que cai no chão e se esconde em alguma fresta, obrigando-nos a uma jornada em sua busca, é a de cinco centavos.

A alma do pobre Tiradentes deve estar angustiada diante de sua segunda "Inconfidência Mineira".

Eparrei!




domingo, 31 de agosto de 2014

Até que a dose os separe


Erasmo e sua esposa. Ele gostava de beber. Muito. Ela ficou doente. Câncer. Os médicos, disfarçadamente, recomendavam ao marido para que já providenciasse um caixão, duvidando haver alguma chance dela continuar viva dentro de, no máximo, alguns poucos meses.

Em desespero, Erasmo foi à igreja de Nossa Senhora de Fátima, o mesmo nome da esposa, para fazer uma promessa: se a ela se curasse, pararia de beber.

E o milagre aconteceu. Ela não apenas se curou, mas continuou uma mulher belíssima, sem a mínima sequela do que havia sofrido. Erasmo parou de beber. E assim, o casal viveu feliz por muitos anos.

Ao final desses anos felizes, as finanças de Flávio não iam muito bem. As discussões conjugais, que eram raras, começaram a se tornar frequentes. Houve o inevitável: Fátima abandonou o marido. 

Quanto a Erasmo... Ele voltou a beber. 

Só Deus sabe a respeito das tentações e privações que ele enfrentou ao longo dos anos de abstinência, firme na meta de cumprir a promessa feita. Festas, churrascadas, feijoadas, comemorações, aniversários, finais de futebol, ansiedade, alegrias, tristezas... No boteco, rodeado de amigos, ele pensa que devia agradecer a esposa por tê-lo abandonado.

Rogério de Moura