De tudo o que sobrou:
Pedra.
Flores, folhas, estatuetas
Aves, peixes, castelos...
Pedra.
Respirou, expirou, bufou
enquanto sentava-se no banco
De pedra.
De tudo, apenas o suor, líquido,
Rolando pelo rosto
Como pedra.

Rogério de Moura

"Jardim de Pedra"
Avenida Rio das Pedras, São Paulo
Foto: Rogério de Moura
Sem água ou cachaça, bebeu poesia.
Fiel pregador de dor que não aplaca
A alma em chamas pela rua vazia.
Frio sereno noturno feito estaca,
Palavra em palavra, semeou euforia,
Sonhos e murros em ponta de faca.
Nas ruas, só o encontro na boemia,
Em casa, só o encontro de ressaca.

Rogério de Moura








Aquilo brilhando lá no céu
Furo de agulha ou anel?
É planeta ou avião?
É estrela ou balão?

O que é aquilo lá no chão
Embrulhado no papelão
Tossindo sem interrupção
É ser humano ou não?

                 (Rogério de Moura)




Dia desses, flagrei os ouvidos tocando nostalgicamente o som da internet sendo acessada via discagem. Hoje em dia, diante das bandas largas, parece algo tão remoto quanto a Idade Média.

Um alarmezinho discreto sendo precedido por um chiado quase-mar.

Pelo menos um bilhão de vezes mais agradável que o tenebroso assobio do alarme de mensagens do Facebook dos celulares de hoje em dia.

Eparrei!




Há um item cristão totalmente distorcido na democracia brasileira e na maneira como os brasileiros encaram problemas e soluções: a crucificação.

Nossos problemas se resolvem quando se crucifica alguém. No caso, o "Cristo" será a Dilma. A sua crucificação nos salvará. Não precisaremos mais nos preocupar com os desmandos anteriores, atuais e vindouros. Todos estamos perdoados. Estão perdoados o Temer, o Aécio, o Sarney, o Collor, o Cunha.

Basta crucificar um. Todo o restante, perdoado está!

Eparrei!
As faixas, os cartazes e os gritos de "Fora Fulano!", "Fora Cicrano", "Fora Beltrano", deveriam ser "Voto distrital já!", "Reforma política já!".

O "Fora Fulano!" é uma coisa a ser aplicada no momento das urnas.


Para a corrupção, não pode haver atenuantes. Se direita, se esquerda, se adulto, se jovem, se idoso, se homem, se mulher, se ajudou aos ricos, se ajudou aos pobres, se tem origem abastada, se tem origem pobre, se é religoso ou não, se branco ou preto. Ato corrupto é ato corrupto.


Eis o que sobrou da democracia brasileira: corrupção e uma briga entre torcidas. Aí, a dupla Dilula (Dilma + Lula) utiliza um subterfúgio para burlar o processo contra corrupção. É nomeado ministro (ele, que condenava o artifício antes de ser governo). Os torcedores do PT comemoram. Os torcedores do outro lado (incluindo os torcedores do PSDB-Alkimin) protestam (ignorando os escândalos e desmandos do governador de SP). Juiz cassa a nomeação: os torcedores do PT protestam, os torcedores do PSDB comemoram. Corrupção mesmo, ninguém tá nem aí. 

Ninguém quer fazer passeata por uma reforma política. 

Cada lado argumenta utilizando os pobres e a pobreza (e, infelizmente, os negros) para justificar o seu argumento. Protestam com veemência contra a corrupção. Desde que não seja a do seus "times". Para os seus times, vale tudo. E o Brasil, rachado. Se eu fosse um sobrevivente da ditadura que tivesse lutado pela democracia, acho que teria dado um tiro na cabeça, tamanha a depressão.

O povão, povão mesmo, esse que ganha pouco, mora na periferia, cujo cotidiano se restringe a trabalho, salário, futebol, novela e Datena, sabe o que é "direita" ou "esquerda"?

Creio que não. Nem os mais estudados sabem direito.

Nesse rebuliço político todo, o povão acompanha pelo noticiário e fica à mercê de gente que teve acesso a uma educação mais apurada. Esse sim, fica nessa birra "direita X esquerda", d acordo com o time (partido político) que torcem.

E vivem sendo massa de manobra de um lado ou de outro.


E, convenhamos, com esse fisiologismo, esse toma lá-dá-cá da política brasileira, eu acho 
um absurdo quando conhecidos ou não ficam nesse papinho de "esquerda e direita".


Lesma e minhoca fizeram combinação. 
Queriam disputar corrida na pista de terra do quintal.
Todo mundo do universo do jardim foi convidado.
A taturana jurou que iria.
O caramujo, que não gostava de sair de casa, disse que ia assistir a transmissão pela TV. 
O tatu disse que iria ouvir pelo rádio.
O aranha iria passar o dia inteiro costurando.
As formigas tinham que trabalhar.
Os pombos estavam em assembléia nos braços de uma estátua.
O beija-flor não tinha paciência para essas coisas.
Foram convidar as baratas mas, na hora, ouviu-se um estrondo e todas saíram correndo.
A mosca suicida encontrou um prato de sopa.
O grilo, boêmio, estava de ressaca.
O gatinho foi tirar um cochilo.
O cachorro perdeu tempo afastando as galinhas.
A taturana virou casulo.
A maritaca, que jurou fazer a locução, estava com laringite.
Quase todos tinham compromissos mais importantes.
O único que viu foi o bem-te-vi.
Só contou o resultado pro papagaio ranzinza.
Que não contou pra ninguém.

(Rogério de Moura)




Antes da última incorporação, o Rogério de Moura, médium que me incorpora, veio com essa pérola:

"O Brasil é uma Dona Florinda!"

Pedi que ele me explicasse esse raciocínio. Ele disse: "Vejamos, a Dona Florinda vive num lugar humilde, com pessoas do mesmo nível. Só que se acha a grã-fina. Chama aos seus vizinhos iguais de "gentalha". O Brasil não é assim com relação à América do Sul, achando que é uma espécie de Estados Unidos latino-americano?

Eu ri um pouco. Acho que o Rogério precisa tomar umas cachaças. Bem que eu gostaria de convidá-lo para tomar umas e outras, vindas diretamente de Minas Gerais no bar do Mineirinho, aqui em frente à casa de sapê. Coincidentemente, o nome do dono do bar é Jair Rodrigues, mesmo nome do famoso cantor.

Tempos atrás, no bar do Mineirinho, aqui em frente à casa de sapê, havia um grupo de sambistas que costumava nos contemplar com clássicos do samba aos sábados e domingos. Miguel Laiá-Laiá era um desses sambistas. 

O grande problema o Miguel era sua memória curta. As doses da cachaça de Minas Gerais não eram a única razão para seus esquecimentos. Eram crônicos, independente de estar bêbado ou sóbrio.

Na hora do samba, ele sempre se esquecia da letra. Então, sempre emendava um "laiá-laiá". Então, para o Miguel, os grandes sambas de Noel Rosa, Candeias, Adoniran, Vanzolini, Ataulfo Alves, Martinho da Vila, Zeca Pagodinho, entre outros, sempre tinham um "laiá-laiá" no meio.

Por hábito, o Miguel foi estendendo esse "laiá-laiá" à sua vida cotidiana. Quando a esposa lhe perguntava o motivo de ter chegado em casa, de madrugada, bêbado, o Miguel respondia: "É porque... porque...", e como não sabia o que dizer, emendava "laiá-laiá". A esposa engolia a justificativa e voltava a dormir.
No trabalho, era a mesma coisa: chegando atrasado, patrão bronqueando e o Miguel se desculpava: "Sabe como é patrão..." e, sem ter o que emendar, começava o seu "laiá-laiá...". O patrão não só deixava para lá como lhe dava um aumento.

E assim, todos se acostumaram ao “laiá-laiá” do Miguel, bordão que o tornou uma figura popular no bairro. Tão popular que um integrante de um partido político o convidou para fazer parte do plantel de candidatos. 
O Miguel, que estava desempregado e endividado, topou. Nos santinhos, podia-se ler: "Vote em Miguel”. No lugar do bordão do candidato, lia-se: "Laiá-Laiá".

A campanha de Miguel Laiá-Laiá foi um sucesso. Assim que subiu ao palanque, saudou a multidão e, sem saber o que discursar, começou a cantar o seu "laiá-laiá" para o delírio do público. O seu “laiá-laiá” caiu na boca do povo e Miguel eleito com ampla contagem de votos. Tantos votos que outros candidatos foram eleitos graças à sua margem de votos, fazendo-o uma figura importante dentro do partido. 

No plenário, não se dava por rogado: "Quero dizer ao presidente da mesa... ‘laiá-laiá...’" E todos aplaudiam em pé. 

Para não fugir à tradição política, um dia, explodiu um escândalo. Superfaturamento, notas fiscais geladas, propinas e todo repertório “standard”.

No epicentro do escândalo, o nosso querido Miguel Laiá-Laiá. Coisa feia. Até as bolsas de valores despencaram. Diante de uma CPI, a presidência da mesa pediu para que o vereador explicasse o desvio de conduta. O sambista levantou-se de seu assento, pigarreou e disse: "Quero dizer a todos os presentes da mesa que... que...” E começou a cantar: “Laiá-laiá..."

No dia seguinte, as manchetes da imprensa diziam que estava tudo esclarecido, outros órgãos bradavam que tudo não passou de calúnias de adversários políticos. Uma importante figura do Judiciário declarou que não havia nada que justificasse uma investigação mais profunda.

E nosso querido Miguel seguiu sua ascensão política, feliz da vida, entoando o seu "laiá-laiá".

Eparrei!





Anos, muitos anos, décadas atrás. Pensando bem, mais de um século atrás, esse era um dos grandes imbróglios da vida moderna:

"Sábado último, Thomaz Antônio do Espírito Santo, ternamente apaixonado por Emma Nofs, seduziu-a e levou-a para sua casa, no Comércio da Luz.
O dr. Arthur Guimarães, zeloso subdelegado do distrito, tendo ciência do fato, para lá se dirigiiu, ontem à noite, e fez conduzir o casal de pombos para a casa do dr. juiz substituto de casamentos, onde, às 10 horas da noite, o ditoso par legitimou seu consórcio."

"Correio Paulistano, 19 de fevereiro de 1891"
Será toda lesma
um caracol sem roupas?

Será toda lesma
um caracol ao ar livre?

Será a lesma um caracol
que não pagou o aluguel?

Rinha de lesmas
quanto tempo duraria?

Quando magoadas,
lesmas choram, riem ou caminham?

Com que tipo de relógio
As lesmas marcam o tempo?

Que pensam quando se arrastam
pelo universo que cabe em meu quintal?

Rogério de Moura



Em um certo país, uma dessas poucas potências espalhadas pelo mundo, um grupo de renomados cientistas, sob a supervisão do exército, desenvolveu um computador dotado de inteligência artificial.
O equipamento, capaz de raciocinar por si, dotado de uma infinidade de informações, tinha capacidade de processamento de dados sem precedentes. Poderia elaborar qualquer raciocínio sobre qualquer assunto, de cálculos a teorias de Filosofia.
Aí, começaram os problemas…
Pediram para planejar uma maneira eficiente de invadir um certo país que, segundo eles, abrigava células terroristas. O computador recusou-se a fazer qualquer cálculo, alegando pouca consistência nos argumentos dos militares. A máquina também falou sobre a morte de inúmeras pessoas que nada tinham de envolvimento com tais células.
Outra vez, tentaram fazer com que o equipamento, via satélite, estabelecesse melhores rotas de exploração de um minério preciosíssimo em um país Sul-americano. O computador se recusou, alegando que já estava na hora de permitir que o próprio país pudesse ser beneficiado com a própria riqueza.
Pediram à máquina que monitorasse a tubulação de petróleo de um país do Oriente Médio. O computador se recusou, recomendando o desenvolvimento de energia alternativa.
Noutra ocasião, negou-se a realizar um cálculo necessário para a correção de um mecanismo de um importante aparato militar.
De que adiantava um equipamento com toda aquela inteligência mas questionando todas as ações que venham a causar danos ao planeta e a algum ser humano que nada tem a ver com o assunto?
Que deveriam fazer os renomados cientistas? Abortar o programa e renunciar à fortuna que o governo lhes fornecia?
Desde então, sob supervisão do exército, os renomados cientistas desesperadamente tentam desenvolver uma inteligência artificial que seja, não apenas, inteligente, como também dotada da ganância e da sordidez humana.


Rogério de Moura



Tijolos,
Um portão,
Bueiro,
Um orelhão.
Calçada,
Um chão,
Passos,
Uma razão.


Rogério de Moura, Jovem Preto Velho, Vila Santa Isabel
Foto: Rogério de Moura


Aproximei-me terno, gentil, amistoso…
Fugiu.
Aproximei-me lentamente, sorrindo…
Outro que foge.
Tentei ser o mais cordial possível.
Outro que alça vôo assustado.

Uma de minhas maiores tristezas é não poder conversar com os pássaros.

(Rogério de Moura)

Ilustração: Mariana Pellegrini

Não existe corretor para corretores ortográficos analfabetos.
Quem inventou o corretor ortográfico para aplicativos de celular, na certa, não sabe o que é uma saia justa.

1.
Eu te amo. Você é a pessoa mais impotente da minha vida.

2.
Trabalhei demais hoje. Estou cagado, vou pra casa dormir.

3.
Boa Noite. Durma bem e sonhe com as antas.

4.
Feliz Natal e próspero ano nojo.

5.
A comida está sem temperatura e o arroz sem saudade.

6.
Ele não trabalha direito. Vou matar ele embora.

7.
Quando voltar pra casa, passa no mercado e traga açougue.

8.
A que horas começa a reunião? Tenho medo de chegar arrasado.

9.
Querida, espera um pouco mais, que eu já estou cheirando.

10.
Amor, não demora muito. Tá começando a chover e não posso pegar uma girafa.

11.
Antes de sair, não esquece de regar a planilha.

12.
O chefe perguntou sobre o relatório. Você já passarinho pra ele?

13.
Ele leu o texto e gozou muito.

14.
O cara é boa gente. Assusta todo mundo que precisa.

15.
Ele se mete em tudo. Devia cuidar da própria vítima.

16.
Você já ouviu a música dessa bunda?

17.
Conheço esse lugar como a palma das minhas mamas.

Eparrei!*

Rogério de Moura


(É uma saudação a Orixá Iansã e significa um olá com admiração mas, o corretor ortográfico alteraria para epa errei)


O primeiro parágrafo da nossa Constituição deveria ser: 

"Todos os cidadãos deverão cumprir as leis a seguir."


Vila Santa Isabel, Zona Leste de São Paulo, bairros de São Paulo, história de São Paulo, Vila Formosa, Tatuapé, Aricanduva, Vila Matilde, futebol de várzea, campos de várzea Benedito Calixto Neto, Basílica de Aparecida, Monsenhor Ciro Turino, Padre José Carlos Anjos, Basílica de São Pedro, São Luis do Paraitinga, São Roque
Foto: Rogério de Moura
Mauro e Joaquim até que tentam. Mas é difícil.
Todas as manhãs, esse é o saldo que os sem-teto deixam em frente ao Santuário Santa Isabel Rainha após uma noite de bebedeira e outras atividades, digamos, obscenas: carrinhos de supermercado cheios de lixo, garrafas de cachaça vazias, potes de todos os tamanhos, galões de água sujos, roupas e sacolas com fezes, uma variedade de entulho, além de restos de comida que pessoas generosas levaram à noite e que, na prática, alimentam os pombos. Soma-se a esse panorama um mal cheiro difícil de sair das narinas.
Os beirais das janelas, os galhos das árvores e as plantas do jardim são transformados em armário e guarda-roupa. Qualquer canto tornou-se um banheiro. As fezes, aliás, encontram-se espalhadas pela escadaria, pela calçada e até pelo corrimão. Um triste panorama que se espalha pela rua, pelos imóveis vizinhos.
Segunda, terça, quarta, quinta, sexta, sábado e domingo. Para os sem-teto, pouco importa. 
Por mais que se retire o entulho, no outro dia, mais entulho é levado, num ciclo contínuo e interminável.

(Rogério de Moura)
Ele estava ansioso para o primeiro encontro. Havia saído de duas relações desastrosas, que ainda muito lhe doíam na alma.

Doeu tanto que mergulhou em um alcoolismo intenso, durante o qual alternou porres homéricos, ressacas tortuosas e vexames inesquecíveis.

Após várias internações, venceu o alcoolismo e superou os traumas amorosos. Chegou o momento de retomar a vida.

Tímido, apelou para um dos vários sites de relacionamentos disponíveis na internet. 

No Almagemea.com, conheceu Thalita. Várias trocas de mensagens depois, combinaram o primeiro encontro.

Ela sugeriu um barzinho da moda, assustando-o. Ex-alcoólatra, sempre evitou qualquer lugar onde qualquer bebida alcoólica estivesse disponível. Até festinhas de aniversário passou a evitar desde a recuperação, temendo uma desastrosa recaída. 

Aceitou, a contragosto: é o lugar preferencial para o primeiro encontro de qualquer casa. Já havia passado o momento de testar sua força de vontade, encarando a tentação do álcool na terra do inimigo. Ou, como preferiu pensar, na cova dos leões. Recusar um bar poderia fazer com que Thalita desconfiasse de seu passado etílico. 

E lá foi. E lá foram. Tudo ia bem. Até o momento em que descobriu a verdadeira profissão de Thalita: sommelière.

Um brinde a esse amor que durou alguns dias. Cujo final foi tão rápido quanto o gole numa taça de vinho barato.

Rogério de Moura



Foram décadas de planejamento, trabalho árduo, muito sangue e muitas vidas para construir aquela pirâmide que seria uma das mais imponentes de todas que haviam no Egito. O arquiteto, orgulhoso de sua obra, caminhava junto ao faraó, que aproximava-se para contemplar mais de perto a empreitada.

Enfim, diante da pirâmide, o arquiteto observava o faraó observando a pirâmide, ansioso para ouvir os elogios e as promessas de dias gloriosos junto ao reinado.

O faraó cerrou um dos olhos, como para mirar algo com mais foco, virou-se para o arquiteto e disse:

- Não dá pra trazer um pouco mais para a esquerda?

Foram esses os últimos instantes do arquiteto, não pela localização da obra, mas pelos palavrões que disse ao faraó, algo que, é claro, o condenou à sentença de morte.

Houve os que disseram - com o devido cuidado para não ser ouvido por outras pessoas - que o arquiteto morreu triste pela obra, mas feliz por ter xingado a mãe do faraó diante dele.

Eparrei!


Rogério de Moura


Desenho: Gill Abbot

Alçou vôo o talento de um jogador de futebol chamado Biro, que jogava em um time chamado Ponte Preta
Também voou o talento de outro jogador, com o mesmo nome, num time chamado Corinthians.
O nome também Biro.
Dois Biros não podiam. 
Foi assim que o rechamaram: Biro-Biro
Um dos mais belos nomes de jogador de futebol.
Quase nome de passarinho.

Pousando em um ninho, como os cabelos dele.
Negro, caboclo e loiro.

                                                                                                                                    Rogério de Moura



Um, dois, três milhões na conta:
"O que fazer com tanto dinheiro?"
Da casa lotérica a fila desponta,
Será assim dia inteiro.

Um, dois milhões e o que se pensa
Quando estamos em uma fila?
Automóvel, comida na dispensa,
Contas pagas, vida tranquila?

Dinheiro no bolso, vida mansa,
O que povo espera, o que eu espero.
Em cada fila sopros de esperança
Em cada pessoa, eterno desespero.


Um, dois, três, quatro milhões
Queremos tudo, sem exagero.
É o que pedem nossas orações

É o que implora nosso desespero.

Fosse só um milhão! E se esqueceria
O último real que se gastou
Para comprar o bilhete de loteria
De outro sonho que se passou.

                                          Rogério de Moura










Se eu fosse um escritor clássico brasileiro, antes de morrer, pediria para as escolas não obrigarem os alunos a lerem minhas obras.

Que angústia deve passar um escritor cujas obras tornaram se tornou leitura obrigatória!
Milhares de gerações, de crianças a adolescentes, detestando minhas histórias. Do mais simples conto ao melhor romance, ao mais complexo poema.

Estudantes chamando minhas obras de chatas, pois afinal, é o que o Ministério da Educação e apostilas de cursinhos recomendaram. Não gostaria de ter um aluno reprovado por algo escrito por mim. Se pudesse, tudo o que um estudante dissesse após ler um trecho de livro meu, por mais absurda fosse a resposta, teria aprovação sumária.

Se eu escrevesse um único livro, desejaria que quem o lesse estivesse fazendo por vontade própria. Que cada frase ecoe na alma do leitor como uma experiência de vida e não memorizada para se satisfazer a resposta de uma questão qualquer.

Que, ao repousar o livro na estante, depois de lida a última linha, a pessoa lembre-se das emoções da leitura e não da angústia de um exame.

Quanto aos autores clássicos, coitados, nada podem fazer. Mortos já estão. 

Que o acaso seja o vendedor de meus livros.


(Rogério de Moura)




Uma nuvem ranzinza achou que a cidade tava murchando de tão seca e resolveu sair para regar. Regou tudo: as ruas, os prédios, as pontes, os carros, as ambulâncias, os caminhões, as carroças de ambulantes, os pombos. Não houve jeito e tudo que era de ser humano foi se molhando também. Podia ser sujeito que fosse: credo, cor e classe social. 


"Olá, todos e todas!""Bom dia, todos e todas" e assim por diante.

Estou pensando que não vai demorar muito e o Politicamente Correto não vai permitir que se diga apenas a palavra "pai" e "mãe".

A pessoa terá que dizer "pai biológico" ou "pai adotivo""mãe biológica" ou ¨mãe adotiva".

Mas, logo um gênio do policitamente correto chegará à conclusão de que a palavra "adotivo" é ofensiva. E, em pouco tempo, todos estarão dizendo "pai biológico" ou "pai não biológico""mãe biológica" ou "mãe não biológica".

E toda a imprensa e os meios de comunicação e, é claro, os politicamente corretos estarão monitorando o que dizemos, para que não caiamos na gravíssima infração em simplesmente dizer "pai" ou "mãe", sem que estas palavras estejam acompanhadas das devidas classificações de paternidade.

E, um professor, ao reunir-se com um grupo de pais e mães de alunos, será obrigado a dizer: "Olá, pai biológico e adotivo, e olá mãe biológica e adotiva."

Tudo em nome do politicamente correto. Que, utilizando-se dos pretextos mais "politicamente corretos", burocratizou o idioma, como os burocratas mais ortodoxos jamais sonhariam.


Eparrei!


A chuva é o único fenômeno da natureza que cospe no rosto do ser humano sua insignificância diante de tudo.


Se o ser humano fosse minimamente poderoso como se imagina, não correria apressado sob as primeiras gotas da chuva de um dia calorento como se ácidas fossem as gotas.


Deus, abençoai esta casa
como abençoaste
o amor dos meus pais,
a minha concepção,
o meu nascimento,
o meu primeiro chôro,
o meu primeiro sorriso,
os meus primeiros passos.


(Rogério de Moura)


Conversa ouvida na Ilha de Itaparica, Bahia, numa tranquila manhã ensolarada:

- Tá faltando quem?

- Pedro, Tonho e Cristina.

- Cadê Pedro?

- Foi procurar Cristina.

- E cadê Tonho?

- Foi procurar Pedro.


(Rogério de Moura)


Então, o bebê espirrou:
¨Isso!… Isso!… Isso!…¨
Depois, tossiu:
¨Casa!… Casa!… Casa!…¨
A mãe lhe calou a tosse com um terno tapinha em suas costas.
Depois, pensou:
¨Como é bonito um bebê espirrar e tossir palavras!¨


(Rogério de Moura)


Será que, se cortadas ou arrancadas, ficam freneticamente tremulado, pulando, vibrando, como as caudas das lagartixas?



Da rua, ouvi a seguinte fala de um filho para sua mãe:

- Ô, mãe, a lua é feita de quê?

As vozes ficaram distantes antes que pudesse ouvir a resposta materna. Não creio que o garoto vá ficar contente com a resposta, seja qual for.


Do que será feita a lua? Do que o menino imaginar durante a noite.


Ilustração: Bô Brega

Agora é assim: não se pode dizer apenas ¨todos¨. Deve se dizer ¨todos e todas¨. 

¨Olá, todos e todas!¨, ¨Bom dia, todos e todas¨ e assim por diante.

Estou pensando que não vai demorar muito e o Politicamente Correto não vai permitir que se diga apenas a palavra ¨pai¨ e ¨mãe¨.

A pessoa terá que dizer ¨pai biológico¨ ou ¨pai adotivo¨, ¨mãe biológica¨ ou ¨mãe adotiva¨.

Mas, logo um gênio do Policitamente correto chegará à conclusão de que a palavra ¨adotivo¨ é ofensiva. E, em pouco tempo, todos estarão dizendo ¨pai biológico¨ ou ¨pai não biológico¨, ¨mãe biológica¨ ou ¨mãe não biológica¨.

E toda a imprensa e os meios de comunicação e, é claro, os politicamente corretos estarão monitorando o que dizemos, para que não caiamos na gravíssima infração em simplesmente dizer ¨pai¨ ou ¨mãe¨, sem que estas palavras estejam acompanhadas das devidas classificações de paternidade.

E, um professor, ao reunir-se com um grupo de pais e mães de alunos, será obrigado a dizer: ¨Olá, pai biológico e adotivo, e olá mãe biológica e adotiva.¨

Tudo em nome do Politicamente Correto. 

Eparrei!

(Rogério de Moura)



Semáforo abriu-fechou
Depois fechou-abriu
Tanto que tempo passou.
O semáforo refletiu:
"Estou entediado e doente,
Verde, amarelo, vermelho,
Depois verde novamente.
Estou ficando velho."
Trombadas, pneus cantando,
Gritos, pessoas atropeladas
E um semáforo lamentando
Por ser uma alma cansada.



(Rogério de Moura)


Apagar...
É o último ato do fogo.