Zé Bigodinho, o terror das eleições

Antes de incorporar no médium Rogério de Moura, encontrei o cineasta angustiado com a seguinte questão: as previsões dos maias sobre o fim do mundo.

O Rogério bradava, em alto tom, que os maias estavam certos ao prever o fim do mundo. Só que esse "fim de mundo" não se daria através de uma chuva de gigantescos meteoros, tampouco explosões nucleares, raios, maremotos, enchentes, tsunamis, rebeliões, greves entre outras catástrofes. Segundo o cineasta, o que os maias haviam previsto foi a união do PT com o Paulo Maluf.

Às vésperas de mais uma eleição, nos deparamos novamente com santinhos de candidatos que nada tem de santo, entupindo bueiros. Tropeçamos em cavaletes espalhados pelas calçadas, exibindo os rostos dos nossos digníssimos candidatos.

Isso me fez recordar uma figura mítica do bairro que abriga minha casa de sapê: o Zé Bigodinho. Um senhor na faixa dos quarenta anos, cujo passatempo, às vésperas das eleições, era pintar bigodes em qualquer imagem de candidato. Não importava o partido. Ele não podia ver nada com o rosto de um político ou candidato e logo ia lá, pintar um bigode no rosto do sujeito. Cartazes colados em muros, postes e até "outdoors" não escapavam da tinta preta do Zé, que nos rostos dos candidatos desenhava um bigode. Quando o sorriso era muito escancarado, pintava um dente careado na "otoridade".

Graças a esse comportamento, Zé Bigodinho envolvia-se constantemente em confusões. Afinal, há pessoas pagas para monitorarem cartazes, cavaletes e “outdoors” contra pichações. Certa vez, um correligionário chamou a polícia. Bate-boca, discussão, ida à delegacia. Mas, que mal fazia Zé Bigodinho? Apenas expressava, democraticamente, seu apreço aos nossos candidatos que, tradicionalmente, exibem os melhores sorrisos e as piores intenções. O auge foi quando bateu boca com um candidato, jogando na autoridade o seu balde de tinta preta.


Zé Bigodinho, quixotescamente, costumava a dizer às pessoas que nunca teremos candidatos e tampouco políticos decentes enquanto não tivermos eleitores decentes. Geralmente encarava um eleitor ofendido com tal declaração. Mas sempre tinha alguém da “turma do deixa disso” para acalmar os ânimos.

Dizia também de que nada adiantaria meia dúzia de eleitores debater sobre esquerda e direita, povo e elite, qual o partido com melhores propostas, se no final das contas, a maioria vota em qualquer picareta sorridente.

Havia torcedores do PT que o chamavam de peesedebista. E também havia torcedores do PSDB que o chamavam de petista.

Faz pouco tempo, o Zé Bigodinho deixou o mundo corpóreo. Está fazendo falta. Fico imaginando os bigodes que ele desenharia na imagem do Serra, do Haddad, do Chalita entre outros. Ou as bocas que teriam as candidatas as candidatas.

Da última vez em que encontrei sua alma, foi na Esquina do Além. Soube que foi para o Paraíso. Deve estar lá, desenhando bigodes nos rostos dos próprios políticos recém desencarnados.

Paraíso? Pensando bem... vai ser difícil encontrar a alma de algum político por lá.

Eparrei!



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