A passeata dos compositores de axé, pagode e sertanejo

O Rogério de Moura, médium cinematográfico que me incorpora, disse-me que uma de suas diversões, quando entra numa pizzaria, é dizer aos funcionários que não existe a palavra "mussarela" que consta no cardápio. O funcionário sempre fica incrédulo. Afinal, está lá, no cardápio: mus-sa-re-la. Mas essa palavra não existe em nenhum dicionário brasileiro. Então, ao redor do Rogério, forma-se uma verdadeira mesa redonda com o gerente, o pizzaiolo e a atendente de caixa, discutindo sobre a grafia da muçarela/mozarela. 


Infelizmente, os problemas da Educação no Brasil não se resumissem à muçarela. O buraco é mais embaixo: evasão escolar, professores mal remunerados e (ou) mal preparados, armas e tráfico de drogas nos pátios, violência entre professores e alunos. 


As universidades particulares tornaram-se verdadeiros clubes para venda de diplomas. Tem lanchonete, academia, lojas... E, de quebra, uma sala de aula. Os professores que ousam cobrar mais aplicação de seus alunos levam reprimendas dos donos das faculdades pois, afinal, o aluno é um cliente. Estão pagando pela mensalidade, com direito a um diploma no final do curso independente de aprenderem ou não. Não podem ser contrariados em hipótese alguma. Diante dessa benesse, os botecos próximos às faculdades tem mais alunos que as salas de aula. Esse é um dos motivos para que uma horda de profissionais, advogados, arquitetos, engenheiros, administradores, publicitários que escrevem "quiser" com "z" e "açúcar" com "ss" esteja sendo despejada no mercado de trabalho anualmente. 


Anualmente, pouco mais de sete por cento dos bacharéis em Direito conseguem passar no exame da OAB. A grande deficiência dos candidatos não é Física Quântica, Química, Biologia. É o bom e velho Português. 


As autoridades responsáveis pela Educação, diante desse quadro tenebroso, num rompante de genialidade, em vez de debater soluções para o ensino, acharam mais fácil questionar o exame da OAB. 


O governo, preocupado com a delicada situação do ensino de Língua Portuguesa, estuda a criação de uma Medida Provisória proibindo os compositores de axé, pagode e sertanejo de utilizarem "ão" em suas rimas.


Essa decisão parte do princípio de que, como essas canções atingem o imaginário popular com maior facilidade, com um vocabulário mais variado e elaborado, possam melhorar o Português das classes B, C e D. Outro efeito benéfico dessa medida seria fazer com que as músicas de axé, pagode e sertanejo tenham qualidade literária dignas de um Chico Buarque.


A ACASPA - Associação dos Compositores de Axé, Sertanejo e Pagode, sabendo da Medida Provisória, decidiu promover um movimento nacional pelo uso livre das rimas em "ão". Há rumores de que haverá uma passeata até Brasília. Na ocasião, os compositores, em marcha, entonando o bordão: "o ão é para todos".


Os compositores temem também que, se a Medida Provisória vier à tona, futuramente seja estendida às rimas que terminam em "ar", "inho" e "ente". Estou pensando seriamente em incorporar no Rogério e acompanhar a tal passeata. Convenhamos, sem rimas terminadas em “ão”, “inho”, “ar” e “ente” não há como se compor letras de axé, sertanejo ou pagode. Essas músicas correm o risco da extinção, num prejuízo cultural tão grave quanto a destruição da Biblioteca de Alexandria.


Compositores de axé, pagode e sertanejo, uni-vos!

Eparrei! 

Banda Araketu, um clássico!

Um comentário:

  1. Hahahahah! Ótima, Rogério! As escolas daqui a pouco vão começar a se chamar centros de treinamento (adestramento para o mercado) Só falta mudar de nome, a prática já é tal qual. Escrever e falar corretamente são detalhes sem importância para o mercado exigente. Há quem faça por aqueles que são analfa mas bons de serviço. rsrs. ABração. Paz e bem.

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