Nas asas de um avião de papel

O pequenino dobrou uma folha de papel e fez um avião. Da janela do quarto jogou. O minúsculo aeroplano, cheio de rabiscos de lápis e giz de cera, contornando os edifícios, desviando-se das pombas, levando como passageiro a imaginação do garoto que podia obaervar as janelas de cada casa e suas breves histórias: um ebê chorando no colo da mãe, dois irmãos discutindo, um casal de namorados namorando, um casal de velhinhos assistindo televisão, um gato no parapeito, uma pipa enroscada numa antena.
Também pode ver os carros se espremendo nas ruas, pontes e viadutos; pessoas se espremendo nos carros, ônibus e trens.
O aviãozinho não se contentou e subiu mais alto, escalando cada degrau do vento.
E assim, o menino conheceu outras ruas, outros bairros, outros lugares. Cada lugar, uma civilização nova, um jeito de agir e de falar.
Enquanto isso, perguntava para si mesmo: quem inventava as cidades, estados, países e continentes? Poderia, algum dia, inventar um deles? Que nome daria?
Afinal, sem um nome, lugar nenhum pode se transformar em algum lugar.
Conheceu culturas, idiomas, comidas, faunas e floras que nunca havia imaginado antes.
Quanto tempo durou a viagem? Semanas, dias, meses... Ou apenas segundos?
Ao fim da jornada, o pequeno avião pousou.
Mal teve tempo de taxear: o pneu de um automóvel passou por cima.
E o avião voltou a ser uma folha de papel.

(Rogério de Moura)


Ilustração: Rogério de Moura

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